O mercado brasileiro de etanol está passando por um momento de expansão, impulsionado pelo aumento da demanda de clientes tradicionais e novas oportunidades no cenário global. Especialistas do setor acreditam que, apesar dos desafios logísticos e de comunicação, o biocombustível deve ganhar ainda mais relevância na matriz energética nos próximos anos.
Durante a 3ª Conferência Internacional Unem Datagro sobre etanol de milho, Plínio Nastari, presidente da Datagro, apresentou dados que mostram que o consumo de combustíveis do ciclo Otto continua em crescimento. Em 2025, houve um aumento de 1,9 bilhão de litros de gasolina equivalente, e para 2026, a expectativa é de um avanço de pelo menos 1,6 bilhão de litros, resultando em um acréscimo de 2,3 bilhões de litros de etanol hidratado.
No horizonte de dez anos, o crescimento anual pode variar entre 2,5 e 3 bilhões de litros de hidratado, indicando um mercado robusto e em expansão. Esse movimento já se reflete na maior participação do etanol na matriz de combustíveis leves. Em 2025, o Brasil substituiu 45,6% da gasolina por etanol, com destaque para estados como Mato Grosso (67,2%), São Paulo (58,9%) e Goiás (57,7%). Outros estados, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, também apresentam índices expressivos, enquanto regiões como Bahia e Maranhão têm participação mais baixa, próxima de 30%, mas com potencial de crescimento.
No campo produtivo, a produção de açúcar se mantém praticamente estagnada nos últimos três anos em 43 milhões de toneladas, enquanto o etanol avançou significativamente, com um crescimento de 33% em cinco anos. O volume saltou de cerca de 31,3 bilhões de litros na safra 2022/23 para 41,6 bilhões de litros projetados em 2026/27. O etanol de milho, que já responde por mais de 12 bilhões de litros, tem compensado a estabilidade da produção a partir da cana-de-açúcar.
Nastari também destacou novas frentes de demanda, como a ampliação do uso de etanol em outros países e o aumento das misturas na gasolina em nível global. Gustavo Mariano, vice-presidente de trading da Inpasa, maior produtora de etanol de grãos da América Latina, identificou três pilares que sustentam a expansão do setor no curto e médio prazo. O primeiro é o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que já subiu de 27% para 30%. Um aumento para 32% poderia gerar uma demanda adicional de cerca de 954 milhões de litros ainda este ano.
O segundo pilar é a expansão da distribuição, especialmente em regiões com menor penetração do biocombustível. No Nordeste, o consumo de anidro foi de 1,65 bilhão de litros em 2025, e um aumento da participação do etanol para 30% poderia gerar uma demanda adicional de 3,75 bilhões de litros. O terceiro vetor é o mercado marítimo, que começa a se destacar como uma nova fronteira, com projeções indicando que esse segmento pode gerar uma demanda adicional de até 32 bilhões de litros até 2040.
Apesar das perspectivas positivas, o setor enfrenta desafios, como a falta de informação do consumidor. Cerca de 60% dos proprietários de veículos flex não sabem que podem utilizar etanol de forma vantajosa, limitando o consumo do hidratado. A logística também é um ponto crítico, pois levar o combustível das regiões produtoras até os grandes centros consumidores exige investimentos em infraestrutura e distribuição. Políticas como o RenovaBio e iniciativas ligadas ao mercado de carbono surgem como oportunidades adicionais para fortalecer a competitividade do biocombustível brasileiro.

