Diaristas premium estão se destacando no mercado de trabalho brasileiro, oferecendo serviços especializados que podem render até R$ 1 mil por dia. Essa transformação no trabalho doméstico é visível em bairros de alto padrão, onde essas profissionais utilizam uniformes, equipamentos próprios e produtos específicos para cada tipo de superfície.
Cláudia Rodrigues é uma das diaristas que se beneficiou desse novo modelo. Anteriormente, ela acordava às 3h da manhã para trabalhar em casas grandes, recebendo apenas R$ 120 por dia. Após despesas, seu ganho líquido era de cerca de R$ 80. Atualmente, Cláudia vende pacotes de serviços que variam de R$ 250 (quatro horas) a R$ 330 (oito horas). “Não tiro menos de R$ 8 mil. Minha agenda está cheia, sempre encaixando clientes”, afirma.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o rendimento médio de Cláudia supera o de muitos brasileiros, com o rendimento real habitual estimado em R$ 3.679. A remuneração das diaristas premium também é maior que a média dos servidores públicos, que é de R$ 4.131, e quase quatro vezes superior à remuneração média de um trabalhador doméstico formal, que é de R$ 2.047,92, conforme o Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE).
A mudança na carreira de Cláudia ocorreu após ela descobrir, por meio do Instagram, novas técnicas e métodos de trabalho. As diaristas premium explicam que a “faxina premium” é um reposicionamento profissional que prioriza um serviço técnico e personalizado, ao invés de apenas rapidez e preço baixo. Isso inclui o estudo de diferentes tipos de piso e a utilização adequada de produtos.
Outra profissional, Gabriela Valente, também fez a transição de um emprego formal para a limpeza profissional. Ela cobra R$ 600 por quatro horas e R$ 1 mil por oito horas. “Passei fome no passado. Hoje consegui reformar a casa da minha mãe, pagar colégio particular para meus filhos e estruturar um negócio”, relata. Além de prestar serviços, Gabriela atua como mentora e desenvolveu seu próprio produto de limpeza.
Apesar do sucesso de algumas diaristas, especialistas alertam que essa transição pode ser arriscada. Entre 2016 e 2025, o número de trabalhadores domésticos com carteira assinada caiu 21,1%, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. A formalização trouxe benefícios, mas também aumentou os custos para as famílias, o que pode ter contribuído para essa queda.
Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do MTE, explica que a pandemia de Covid-19 e mudanças demográficas também impactaram a demanda por serviços domésticos. Muitas famílias, com filhos mais velhos ou residindo em apartamentos menores, optam por serviços pontuais, como diaristas, em vez de manter empregados em tempo integral.
Embora as diárias premium sejam atraentes, Montagner ressalta que elas não refletem a realidade da maioria das diaristas. “São casos específicos, não uma mudança estrutural da categoria”, afirma. Especialistas também destacam que, apesar de ganharem mais, as diaristas autônomas não têm acesso a benefícios como FGTS e férias remuneradas. A formalização como Microempreendedor Individual (MEI) é recomendada para garantir segurança jurídica e acesso a benefícios previdenciários.
O Sebrae sugere que as diaristas planejem sua transição, considerando custos reais, construindo uma presença digital profissional e definindo preços de forma estratégica. Gabriela alerta que a qualidade do serviço deve ser priorizada, pois “quem entende o trabalho, paga”. Além disso, a criação de uma reserva financeira e a formalização de contratos são essenciais para enfrentar períodos de baixa demanda.


