Um estudo recente questiona a crença de que emoções reprimidas, luto e sofrimento podem causar câncer. A pesquisa indica que essa ideia não possui respaldo científico e pode gerar culpa desnecessária nos pacientes.
O câncer é uma doença complexa, com estimativas de que 90 a 95% dos casos sejam resultantes de mutações ao longo da vida, influenciadas por fatores ambientais, estilo de vida e genética. A inclusão do estresse e emoções reprimidas como causas principais pode culpar o paciente por sua própria condição, o que não é verdadeiro.
A pesquisa analisou dados de 421.799 indivíduos e considerou fatores psicossociais como suporte social percebido, luto, estado civil, neuroticismo e sofrimento psicológico. Os resultados mostraram que nenhum desses fatores estava associado a um risco elevado de câncer em geral ou a tipos específicos, como câncer de mama, próstata e colorretal.
Embora a percepção de apoio social, a ausência de um relacionamento e a perda de um ente querido tenham sido associados a um risco maior de câncer de pulmão, esses riscos diminuíram após ajustes para fatores conhecidos, como tabagismo e histórico familiar de câncer. Isso indica que comportamento e exposição ambiental são determinantes mais relevantes.
As conclusões foram consistentes para homens e mulheres, e a robustez metodológica do estudo, com uma amostra ampla e acompanhamento consistente, fortalece a confiabilidade dos resultados.
Apesar de fatores emocionais não estarem ligados ao risco de câncer, a saúde mental continua sendo crucial durante o tratamento. O diagnóstico oncológico pode gerar ansiedade e incertezas, impactando a adesão ao tratamento e a qualidade de vida do paciente. O suporte psicológico é essencial para um tratamento oncológico humanizado e baseado em evidências.
“Ramon Andrade de Mello é oncologista, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia e pesquisador sênior do CNPQ.”

