Cientistas da Universidade de Regensburg, na Alemanha, publicaram um estudo que revela que memórias aparentemente perdidas não estão destruídas, mas apenas temporariamente inacessíveis. A pesquisa foi divulgada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e apresenta uma técnica chamada ‘viagem mental no tempo’. Essa técnica consiste em recriar mentalmente as condições originais (ambiente, emoções, pensamentos) que estavam presentes no momento em que a memória foi formada.
Os autores do estudo afirmam que as memórias antigas, que são revividas mentalmente por meio dessa técnica, são tão acessíveis quanto aquelas que foram registradas recentemente no cérebro. Essa abordagem pode ser especialmente útil em processos de aprendizagem, reabilitação cognitiva e saúde mental. Ao reencenar mentalmente o local, sentimentos e pensamentos que estavam presentes quando a memória foi criada, o cérebro pode restaurar acessos que foram apagados pelo tempo.
Os pesquisadores utilizam a metáfora do mito grego de Sísifo, que continuamente rola uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta, para ilustrar que ‘ciclos recorrentes de rejuvenescimento podem ser essenciais para manter a capacidade de recuperação das memórias por períodos mais longos’.
Para testar a eficácia das técnicas, os autores dividiram mais de 1,2 mil voluntários em dois grupos: um grupo estudou passagens curtas de texto, enquanto o outro memorizou listas de substantivos sem conexão. Ambos os grupos foram subdivididos em quatro subgrupos, que foram testados para avaliar as técnicas. Um subgrupo controle recordou imediatamente o material aprendido várias vezes na primeira hora, sem técnicas adicionais. Os outros três aguardaram intervalos específicos — quatro horas, 24 horas ou sete dias — entre a memorização e a recuperação.
Após os intervalos, os três subgrupos realizaram a ‘viagem mental no tempo’, recordando pensamentos e sentimentos originais ou revisando informações seletivas como estímulo. O grupo controle foi testado simultaneamente sem essas técnicas, para estabelecer um parâmetro de lembrança. As duas técnicas mostraram-se eficazes nas primeiras 24 horas. A recordação emocional restaurou 70% das memórias após quatro horas e 59% após 24 horas. A visualização de uma amostra (priming seletivo) foi ainda mais eficaz, recuperando 84% e 68%, respectivamente, nos mesmos intervalos.
Contudo, após uma semana, a eficácia das técnicas diminuiu drasticamente. A recordação emocional perdeu completamente sua capacidade restaurativa, não recuperando nenhuma memória-alvo. Por outro lado, a recordação por pistas manteve uma eficácia residual, restaurando 31% das memórias.
O primeiro autor do estudo, Karl-Heinz Bäuml, destacou que os resultados revelaram um fenômeno paradoxal: ‘a viagem mental no tempo não apenas aumentou a recuperabilidade imediata das memórias, mas também elevou suas taxas de esquecimento posterior’. Segundo ele, as memórias antigas têm características aparentemente contraditórias: são mais difíceis de lembrar no presente, mas também ficam mais estáveis devido à consolidação contínua. A viagem mental é capaz de reverter ambos os efeitos.
A questão levantada é se vale a pena rejuvenescer as memórias, mesmo sabendo que, após o processo, elas serão esquecidas mais facilmente. Bäuml acredita que, em aplicações práticas, o aumento na recuperabilidade imediata compensa o prejuízo das taxas elevadas de esquecimento posterior. ‘Se você quiser se preparar para uma prova ou algo do tipo, seria realmente uma boa ideia restabelecer o contexto’, afirmou.
A mensagem final do experimento é de esperança: esquecer não significa perda definitiva das memórias. O estudo comprova que elas permanecem inacessíveis temporariamente, mas podem ser despertadas continuamente por meio de uma recriação contextual adequada.


