Um estudo apoiado pela Fapesp demonstrou que pequenas doses de um antibiótico podem ser eficazes no tratamento do transtorno do pânico. Os experimentos foram realizados na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostrando que a minociclina apresenta efeitos semelhantes ao clonazepam, medicamento amplamente utilizado para essa condição.
A pesquisa foi publicada na revista Translational Psychiatry. As doses de minociclina utilizadas foram inferiores às normalmente prescritas para infecções bacterianas, o que diminui o risco de resistência bacteriana. Beatriz de Oliveira, primeira autora do estudo, explicou que, em modelos experimentais com camundongos, a administração do antibiótico por 14 dias antes da indução de um ataque de pânico resultou na diminuição de uma das respostas panicogênicas. Em humanos, o tratamento também reduziu a intensidade das crises de pânico induzidas pela inalação de CO2.
O estudo faz parte do projeto “Fisiopatologia da sensibilidade ao CO2: papel do locus coeruleus”, coordenado por Luciane Gargaglioni, professora da FCAV-Unesp. Gargaglioni destacou que algumas condições psiquiátricas estão relacionadas à inflamação de células nervosas. A minociclina, em baixas doses, possui efeito anti-inflamatório, o que pode explicar a melhora nos sintomas, diferentemente do clonazepam, que atua inibindo receptores específicos no cérebro.
Embora a minociclina não produza todas as respostas do clonazepam, ela pode ser uma alternativa para os cerca de 50% dos pacientes que não respondem ao medicamento psiquiátrico. Gargaglioni ressaltou que o clonazepam, ao se ligar ao receptor GABA, pode causar efeitos colaterais, como dependência, tornando-o um medicamento controlado.
Como a minociclina já é aprovada para outros usos, os pesquisadores consideram que os estudos clínicos podem avançar diretamente para a fase 2, que envolve um maior número de pacientes e avaliação de diferentes doses e possíveis efeitos colaterais. A pesquisa também abre possibilidades para a busca de outras drogas com ação anti-inflamatória que possam ser eficazes no tratamento do transtorno do pânico.
Os pesquisadores analisaram 49 pacientes diagnosticados com transtorno do pânico. Os participantes inalaram ar enriquecido com 35% de dióxido de carbono no início do estudo e, após sete dias de tratamento com clonazepam ou minociclina, os sintomas de ansiedade foram avaliados por psiquiatras. Gargaglioni explicou que a concentração de CO2 utilizada não é encontrada na natureza, mas provoca sensações semelhantes às de um ataque de pânico.
Após o tratamento com minociclina, os pesquisadores observaram uma redução nos níveis de citocinas pró-inflamatórias no sangue dos pacientes, além de um aumento da IL-10, que favorece a resposta à inflamação. Embora não tenham sido detectadas diferenças significativas nas citocinas entre os tratamentos, as respostas comportamentais dos camundongos mostraram redução dos saltos após a indução do ataque de pânico.
As análises do locus coeruleus indicaram uma diminuição da densidade de micróglias nos camundongos após a exposição ao CO2, reforçando a importância dessa região cerebral nos ataques de pânico. Beatriz de Oliveira concluiu que o estudo abre novas perspectivas para o tratamento de condições psiquiátricas relacionadas à inflamação em células nervosas.

