A concessão de cidadanias na Europa atingiu um patamar histórico em 2024, com quase 1,2 milhão de nacionalidades concedidas, segundo dados do Eurostat. Este número representa o maior registro já feito e um crescimento de 11,6% em relação ao ano anterior, além de mais de 50% na última década.
Esse aumento é resultado de uma combinação de fatores, incluindo guerras, crises econômicas e o envelhecimento populacional do continente, que estão mudando o perfil demográfico da Europa.
A Alemanha liderou a concessão de cidadanias, respondendo por cerca de um quarto do total. O país implementou mudanças que reduziram o tempo mínimo de residência necessário para a naturalização e agora permite a dupla nacionalidade, uma mudança significativa para um continente que historicamente é mais restritivo.
Especialistas afirmam que o aumento na naturalização na Alemanha também se deve ao amadurecimento de fluxos migratórios anteriores, especialmente a chegada de refugiados sírios desde 2015, que agora atendem aos requisitos legais para se naturalizar.
A Espanha e a Itália, que ocupam a segunda e terceira posição em concessões de cidadania, seguem um padrão semelhante, mas com diferenças. A Espanha concentrou suas concessões em imigrantes de países com laços históricos e linguísticos, como Venezuela e Marrocos. A Itália, por sua vez, mantém uma forte tradição de reconhecimento por descendência, beneficiando comunidades com conexões históricas ao país.
O Brasil se destaca como o décimo maior país de origem de pessoas que obtiveram cidadania europeia em 2024, com cerca de 30 mil concessões, principalmente por meio do direito de sangue, especialmente na Itália e em Portugal. Contudo, mudanças recentes nas regras italianas limitam o reconhecimento de cidadania a apenas duas gerações para descendentes nascidos fora do país, o que pode impactar diretamente os brasileiros nos próximos anos.
A Europa enfrenta um desafio estrutural, pois a população envelhece rapidamente e há uma necessidade crescente de novos trabalhadores para sustentar os sistemas econômicos e previdenciários. A taxa de natalidade em diversos países está abaixo do nível de reposição há décadas, fazendo com que a naturalização de imigrantes se torne um instrumento econômico vital.
Apesar da necessidade econômica, o aumento das cidadanias ocorre em um ambiente político tenso, com partidos de direita e movimentos anti-imigração ganhando espaço em vários países. Esses grupos frequentemente associam imigração a pressões sobre serviços públicos e segurança. Os governos enfrentam um dilema: restringir a imigração pode atender a demandas políticas internas, mas agrava desafios econômicos de longo prazo.
O recorde europeu de cidadanias não acontece isoladamente, mas reflete uma competição global crescente por trabalhadores qualificados. Países como Canadá e Austrália já adotam políticas agressivas para atrair talentos, enquanto os Estados Unidos enfrentam incertezas migratórias. A União Europeia parece estar ajustando sua estratégia, reconhecendo que sua sustentabilidade econômica dependerá cada vez mais de imigrantes.


