O preço do café moído registrou alta de 0,54% ao consumidor nos últimos 12 meses. Embora a inflação tenha desacelerado, os preços permanecem elevados nas prateleiras.
O Brasil deve colher uma safra maior de café neste ano, o que pode ajudar a aliviar a inflação ao consumidor ao longo de 2026. No entanto, economistas afirmam que o preço do café dificilmente voltará aos níveis de seis anos atrás. Em 2020, o quilo do café tradicional torrado e moído custava, em média, R$ 16,45, enquanto hoje o mesmo produto custa cerca de R$ 63,69 no varejo, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic).
O preço pago ao produtor pela saca de café começou a cair no início do ano passado, devido à expectativa de aumento da produção no Brasil e no mundo. Contudo, com a imposição de tarifas pelo presidente Donald Trump, as cotações voltaram a subir em agosto, recuando apenas após a retirada das taxas em novembro.
O analista do Safras & Mercado, Gil Barabach, comenta que a desaceleração nos preços do café já chegou ao consumidor. A inflação do café moído vem caindo lentamente desde julho de 2025 e, neste ano, já acumula queda de 3,6%, segundo o IPCA, índice oficial de inflação calculado pelo IBGE. No entanto, esse recuo ainda não foi suficiente para compensar a alta de preços dos últimos anos.
““A continuidade da queda de preços nos próximos meses vai depender da recomposição da produção e dos estoques”, diz Barabach.”
A colheita de café no Brasil acontece entre maio e julho. O economista do Safras & Mercado projeta que o Brasil deve colher 75,6 milhões de sacas de 60 quilos nesta temporada, expectativa que está em linha com a do analista da StoneX Brasil, Fernando Maximiliano. Ele afirma que a safra deste ano aumentará a disponibilidade de café no mercado brasileiro, o que tende a pressionar os preços para baixo.
A previsão dos analistas é maior do que a do governo federal, que estima uma colheita de 66,2 milhões de sacas, uma alta de 17% em relação à temporada passada. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), essa alta se deve à bienalidade positiva, à entrada de novas áreas em cultivo, ao avanço tecnológico e a condições climáticas mais favoráveis.
Barabach observa que, mesmo com a inflação do café em queda, os preços dificilmente voltarão aos níveis de anos atrás. “A volta a níveis mais baixos é um processo gradual, que vai depender da evolução da produção não apenas neste ano, mas também nos anos seguintes”, afirma.
André Braz, economista do FGV Ibre, alerta que problemas climáticos previstos para o segundo semestre podem prejudicar as colheitas nos anos seguintes. Ele destaca que o café é uma cultura bianual e que fenômenos climáticos têm ocorrido com mais frequência nos últimos anos.
““Até o início dos anos 2000, El Niño e La Niña ocorriam a cada sete ou oito anos. Hoje, esses fenômenos aparecem com mais frequência — e, para 2026, a previsão é de um El Niño forte”, acrescenta Braz.”
Um relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) aponta 80% de probabilidade de desenvolvimento de um El Niño no segundo semestre, o que pode afetar a safra de café devido à alteração no volume e na distribuição das chuvas. “Devido a essa expectativa de clima adverso, não deve haver grandes alívios para o consumidor”, conclui Braz.

