Um dos maiores paradoxos dos sistemas de saúde é a fragilidade que representa gastar a maior parte dos recursos tratando doenças que poderiam ser evitadas. Essa situação não é exclusiva do Brasil, mas se repete em todo o mundo. Com o aumento dos custos e o envelhecimento da população, esse modelo se torna insustentável.
Nos Estados Unidos, o sistema de saúde consome cerca de 17,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior percentual do mundo, com tendência de crescimento contínuo. Apesar desse investimento, a qualidade e o acesso aos serviços de saúde não acompanham esse nível de gastos. Na Europa, países como a Suíça destinam mais de 11% do PIB à saúde, com gastos per capita superiores a US$ 8 mil anuais. Aproximadamente 72% desses custos estão associados a doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, doenças cardiovasculares e câncer, muitas das quais são evitáveis ou controláveis com intervenções precoces.
No Brasil, os gastos com saúde representam cerca de 9% do PIB, com predominância do investimento privado, que é de aproximadamente 5%, em comparação ao gasto público de cerca de 4%. Os custos com cuidados de longa duração, relacionados ao envelhecimento e à progressão de doenças crônicas, estão crescendo de forma consistente. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), esse tipo de despesa deve aumentar cerca de 2,6% ao ano até 2050.
A análise desses números leva à conclusão de que estamos direcionando recursos crescentes para tratar estágios avançados de doenças, quando deveríamos investir mais em prevenção. O envelhecimento da população impacta diretamente a demanda por serviços de saúde. No Canadá, cerca de 17,5% da população já tem mais de 65 anos, e a maioria desses indivíduos convive com múltiplas doenças crônicas simultaneamente. Esse padrão se repete em diversos países desenvolvidos e começa a se intensificar em mercados emergentes como o Brasil.
Entretanto, envelhecer não precisa ser sinônimo de adoecer. Com acompanhamento adequado, hábitos saudáveis e intervenções precoces, é possível reduzir a incidência e a gravidade dessas condições. Essa é uma oportunidade significativa e, ao mesmo tempo, um desperdício do sistema atual.
Os hospitais precisam passar por uma transformação profunda. Historicamente, foram estruturados para atuar na fase aguda da doença, quando o paciente já precisa de internação ou cirurgia. Esse modelo foi essencial durante décadas, mas não é mais suficiente. O hospital deve assumir um papel mais amplo na jornada de cuidado, atuando na coordenação, no monitoramento e, principalmente, na prevenção.
Em sistemas mais maduros, como no Reino Unido e no Canadá, já se observa um movimento em direção a modelos de acompanhamento contínuo de pacientes crônicos, utilizando telemonitoramento e atenção primária estruturada. Esses programas conseguem reduzir internações, evitar complicações e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Além disso, cresce a migração de cuidados para fora do ambiente hospitalar. Modelos como “hospital at home” e o uso intensivo de tecnologia permitem tratar pacientes com segurança em casa, reduzindo custos e liberando leitos para casos realmente complexos. O hospital do futuro será cada vez mais especializado e menos demandado, pois o sistema se tornará mais eficiente em evitar que o paciente chegue até ele.
Para construir um sistema de saúde sustentável, é necessário inverter a lógica atual, que ainda concentra incentivos no volume de procedimentos. A sustentabilidade virá da capacidade de evitar que esses procedimentos sejam necessários, por meio do fortalecimento da atenção primária, uso de dados para identificar riscos, acompanhamento contínuo de pacientes e estímulo a hábitos mais saudáveis.
O maior desperdício do sistema de saúde não está no custo de um procedimento de alta complexidade, mas no fato de que muitas vezes esse procedimento poderia nunca ter sido necessário. O futuro da saúde será definido pela capacidade de evitar condições graves, pois o sistema mais eficiente não é aquele que realiza mais procedimentos, mas aquele que consegue fazer com que eles não sejam necessários.

