O Ibovespa, principal índice da B3, atingiu recentemente seu maior nível em termos reais, superando o pico de maio de 2008 ajustado pela inflação. O índice acumula alta de 22% no ano e oscila próximo da marca de 200 000 pontos. Contudo, o cenário não é de euforia, pois o total de empresas com ações negociadas no Brasil caiu 9% durante o governo Lula, passando de 448 para 407 companhias.
Desde setembro de 2021, não houve abertura de capital, quando a empresa de fertilizantes Vittia estreou na B3. Durante esse período, empresas deixaram a bolsa devido a fechamentos de capital, fusões ou cancelamentos de registro. O recorde do Ibovespa é impulsionado por fatores externos ao desempenho do mercado de ações.
Os investidores estrangeiros têm sido o principal motor da valorização do índice. Desde o início do ano até a primeira quinzena de abril, eles injetaram R$ 65,3 bilhões na B3, um aumento de 156% em relação ao fluxo total de 2025. Essa movimentação é parte de um movimento global de realocação de recursos, com investidores vendendo ativos americanos e buscando alternativas em mercados emergentes.
O Brasil se destaca nesse cenário, combinando grande produção de commodities, especialmente petróleo, com uma localização distante dos principais focos de conflito. “O país combina grande produção de commodities, especialmente petróleo, com distância dos principais focos de conflito, o que o torna atraente como destino de capital”, afirma Flávio Conde, da casa de análise Levante Investimentos.
Em 2025, a produção nacional de petróleo atingiu 3,8 milhões de barris por dia, tornando-se o primeiro item da pauta de exportações, com US$ 44,6 bilhões. O preço do petróleo também contribui para o apetite dos investidores estrangeiros, já que o Ibovespa ainda está cerca de 60% abaixo do pico de 2008 em dólar.
“Para o investidor estrangeiro, comprar a bolsa brasileira 60% mais barata com o mesmo governo de 2008 é muito mais vantajoso”, afirma Werner Roger, sócio-fundador da gestora Trígono Capital. Apesar do capital externo sustentar a alta do índice, os investidores locais permanecem afastados, preferindo deixar o dinheiro na renda fixa.
A taxa básica de juro, a Selic, que se mantém em dois dígitos durante toda a gestão Lula, atualmente está em 14,75% ao ano e deve encerrar 2026 em 13% ao ano. O nível elevado da Selic encarece o crédito, reduz o apetite por risco e inibe investimentos, o que impacta negativamente os empreendedores e limita movimentos mais ousados das empresas.
“Como o custo do capital permanece alto, o mercado não se desenvolve”, diz Bruno Benassi, analista da corretora Monte Bravo. Nesse contexto, algumas empresas, como Gol, Carrefour e JBS, optaram por fechar o capital em vez de buscar novos investidores.
O fluxo de capital estrangeiro não compensa as saídas de empresas, que se concentram em fundos de investimentos atrelados ao Ibovespa, direcionando recursos para empresas já estabelecidas. Com a Selic em dois dígitos, a renda fixa continua mais atraente que o mercado acionário, resultando em recordes na bolsa sem grande entusiasmo.

