A indústria de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos no Brasil produz cerca de 600.000 toneladas de embalagens anualmente. Aproximadamente 30% desse total, ou 200.000 toneladas, são recuperadas e recicladas, conforme informações de Fábio Brasiliano, diretor de sustentabilidade da ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos).
Esses dados foram apresentados em entrevista ao programa VEJA+Verde. O programa Mãos para o Futuro, criado pela ABIHPEC há cerca de 20 anos, é o principal instrumento de logística reversa do setor, abrangendo cinco setores industriais e contando com mais de 200 cooperativas de catadores em todo o Brasil.
“Desde o início entendemos que, em um país de tamanho continental, o trabalho com cooperativas é o que mais se adequa”, afirmou Brasiliano. Para manter essa estrutura, o programa investe cerca de R$ 30 milhões por ano em maquinário, capacitação e infraestrutura.
A mecânica do ciclo de reciclagem é simples, mas sua execução é complexa. Após a separação do material reciclável pelo consumidor, a coleta seletiva municipal, que cobre quase 100% do município de São Paulo, encaminha o resíduo para cooperativas, onde os catadores triagem os materiais por tipo. O material triado é vendido à indústria recicladora, que o transforma em nova matéria-prima.
Brasiliano citou a Unilever como exemplo, destacando que a empresa já superou 100% de embalagens de uma de suas marcas destinadas de forma ambientalmente adequada. Ele aconselha os consumidores a separarem corretamente as embalagens, alertando que o erro mais comum é descartar frascos de perfume e potes de xampu no lixo do banheiro, misturados ao papel higiênico.
““Aquilo não vai ter reciclagem”, alertou Brasiliano.”
A recomendação é enxaguar levemente as embalagens antes de descartá-las, para que cheguem secas à cooperativa. O Brasil, classificado como “megadiverso”, possui uma indústria de cosméticos que extrai princípios ativos de espécies nativas há mais de 100 anos. Um estudo da Embrapa identificou cerca de 50.000 espécies com potencial de uso em alimentos, cosméticos e farmácia.
O uso comercial desse patrimônio genético é regulado pelo Marco da Biodiversidade Brasileira (Lei 13.123, de 2015), que exige que as empresas compartilhem benefícios com as comunidades que fornecem insumos. Na prática, 1% da receita líquida de cada produto que utiliza conhecimento tradicional ou espécie nativa deve retornar para essas comunidades.
Apesar de não ser um setor intensivo em energia, a indústria de cosméticos é um dos maiores compradores voluntários de créditos de carbono do Brasil. Empresas do setor estão testando frotas movidas a biometano e a ABIHPEC lançou uma “trilha de descarbonização” para ajudar pequenas e médias empresas a aprimorar suas estratégias climáticas.
Brasiliano destacou que a COP30, realizada em Belém no ano passado, trouxe a lição de que é hora de implementar ações concretas. “Agora chegou a hora de pôr a mão na massa”, afirmou.
O setor exporta cerca de 1 bilhão de dólares por ano, com a Argentina como principal destino, e já se prepara para as exigências do Green Deal europeu, que demanda rastreabilidade de recursos genéticos e análise de ciclo de vida.

