A indústria do tabaco tem utilizado mensagens de responsabilidade social para fazer com que seus produtos pareçam menos perigosos. Um estudo realizado por pesquisadores da University of Nevada, Reno, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto de Controle Global do Tabaco da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health analisou a eficácia de vídeos curtos que promovem valores empresariais.
Os resultados indicam que essas mensagens podem levar os consumidores a enxergar as empresas de tabaco de forma mais positiva e a acreditar que seus produtos são menos nocivos. Essa percepção é especialmente forte entre mulheres e não fumantes. O aumento do tabagismo entre adultos no Brasil, que ocorre pela primeira vez em quase duas décadas, é um fator preocupante.
A responsabilidade social corporativa (RSC) é uma estratégia que as empresas utilizam para mostrar que se preocupam com o impacto social e ambiental de suas atividades. No entanto, a promoção da RSC não está sujeita às mesmas restrições que a publicidade de produtos de tabaco, permitindo que as empresas façam marketing indireto de seus produtos.
O estudo envolveu mais de 4.000 adultos que assistiram a vídeos sobre uma empresa fictícia de tabaco chamada “Cruzeiro do Sul”. Um vídeo focava nas finanças da empresa, enquanto o outro enfatizava suas práticas de RSC. Os participantes que assistiram ao vídeo sobre RSC relataram uma percepção mais positiva da empresa e de seus produtos.
Esse fenômeno, conhecido como “halo de saúde”, refere-se à tendência de associar informações positivas a produtos prejudiciais, levando a uma percepção errônea dos riscos à saúde. A Organização Mundial da Saúde considera a RSC da indústria do tabaco uma contradição, pois produtos que prejudicam a saúde pública não podem ser apresentados como benéficos.
No Brasil, o uso de tabaco está relacionado a cerca de 174.000 mortes anuais. A falta de regulamentação específica sobre a promoção da RSC permite que as empresas de tabaco influenciem a percepção pública, fazendo com que seus produtos pareçam menos perigosos. Para mitigar essa situação, é necessário implementar regras mais rigorosas que proíbam explicitamente a promoção de RSC como parte das políticas de proibição de publicidade de tabaco.
Fechar essa brecha regulatória é essencial para reduzir a desinformação e desencorajar o uso de tabaco, especialmente entre os jovens. Caso contrário, as empresas continuarão a utilizar essas estratégias para encobrir os riscos de seus produtos.


