O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou nesta segunda-feira, 6, que a operação dos Estados Unidos para resgatar um de seus pilotos pode ter sido uma fachada para “roubar urânio enriquecido”. O oficial da Força Aérea americana cujo caça foi abatido sobre o território iraniano passou cerca de 40 horas escondido em uma região montanhosa antes de ser recuperado no sábado, 4.
O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baqai, declarou que há “muitas dúvidas e incertezas” sobre a operação. “A área onde se alegava que o piloto americano estava, na província de Kohgiluyeh e Boyer-Ahmad, fica muito distante da área onde tentaram pousar ou pretendiam pousar suas forças no centro do Irã”, disse ele.
“A possibilidade de que tenha sido uma operação de engano para roubar urânio enriquecido não deve ser ignorada de forma alguma”, acrescentou Baqai, que classificou a operação como um “desastre” para os Estados Unidos.
O presidente americano, Donald Trump, anunciou que a ação foi “audaciosa”. “Esse tipo de incursão raramente é tentado por causa do perigo para ‘homens e equipamentos’. Simplesmente não acontece! A segunda operação ocorreu após a primeira, na qual resgatamos o piloto em plena luz do dia — algo também incomum — permanecendo por sete horas sobre o Irã. Uma demonstração INCRÍVEL de coragem e talento por parte de todos!”, escreveu Trump em sua rede social, a Truth Social.
A imprensa americana já havia noticiado anteriormente que Washington avalia a possibilidade de enviar forças especiais ao Irã para apreender o material nuclear. Em audiência no Congresso, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que, em algum momento, “alguém terá que ir buscar o estoque de urânio enriquecido”.
O programa nuclear iraniano está no centro das hostilidades entre Estados Unidos, Israel e Irã, que desde o dia 28 de fevereiro criaram um cenário de instabilidade generalizada no Oriente Médio. A coalizão israelo-americana acusa Teerã de instrumentalizar seu programa atômico para fins bélicos e justifica a guerra como forma de impedir o avanço da República Islâmica em direção à bomba atômica, que Tel Aviv descreve como “ameaça existencial”.
Embora as autoridades iranianas neguem qualquer tipo de projeto militar nuclear, reiterando que seu programa serve a fins civis e energéticos, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) revelou haver urânio enriquecido em até 60%, criando um estoque de mais de 400 quilos do material. O patamar está tecnicamente próximo dos 90% de pureza considerados necessários para a produção de uma bomba nuclear.
No plano de cessar-fogo apresentado pelo governo de Donald Trump ao regime dos aiatolás no mês passado, um dos 15 pontos exige o fim total do programa nuclear. A guerra começou em meio a negociações entre Washington e Teerã sobre o tema, que se encontravam em um impasse. O governo iraniano considera o movimento uma “traição à diplomacia” que torna uma reabertura do diálogo inútil.
“Não há conversas nem negociações entre o Irã e os Estados Unidos. Ninguém pode confiar na diplomacia dos Estados Unidos”, atestou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmail Beghaei.
A tensão em torno do programa nuclear da nação persa se intensificou após a erosão do acordo firmado em 2015, conhecido como Plano de Ação Conjunto Global, que impunha limites rígidos ao enriquecimento de urânio em troca do alívio de sanções. Desde a saída unilateral dos Estados Unidos do pacto, durante o primeiro mandato de Donald Trump, o Irã ampliou progressivamente seus níveis de enriquecimento e reduziu a cooperação com inspetores internacionais.
Em junho de 2025, os Estados Unidos já haviam bombardeado instalações nucleares e militares iranianas durante o conflito entre Tel Aviv e Teerã. Segundo estimativas anteriores da AIEA, antes dos bombardeios realizados em junho, Teerã possuía cerca de 440 kg de urânio enriquecido a 60%. De acordo com o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, cerca de 200 kg do material que sobreviveram aos ataques aéreos no ano passado estariam armazenados em túneis profundos próximos ao complexo nuclear de Isfahan. Outra quantidade do material estaria em Natanz, onde o Irã construiu uma nova instalação fortificada e subterrânea conhecida entre analistas ocidentais como “Pickaxe Mountain”.

