O historiador e sociólogo Michel Gherman lançou o livro “Diálogos em tempos difíceis: decifrando a gramática da nova extrema direita” (Editora Fósforo), coautorado com o teólogo Ronilso Pacheco. A obra analisa como líderes autoritários utilizam a religião para mobilizar suas bases, propondo um resgate do “letramento democrático” diante da chamada “pedagogia do ódio”.
Gherman, professor do departamento de sociologia da UFRJ e coordenador acadêmico do Instituto Brasil-Israel, conversou sobre a importância de abrir diálogos, mesmo em tempos difíceis, e comentou sobre o projeto de lei sobre antissemitismo apresentado em Brasília.
“Eu estou em Brasília, onde vamos ter um encontro organizado pelo governo sobre as definições de antissemitismo – que está muito grande no mundo inteiro e o governo brasileiro tomou uma decisão inédita de discutir o que é antissemitismo e o que não é. Isso já é um sinal de tempos difíceis, não é?” disse Gherman.
Ele e Pacheco, que pertencem a comunidades instrumentalizadas pela extrema direita, decidiram abrir um diálogo sobre suas identidades em tempos de extremismo político. “É importante abrir uma conversa”, afirmou Gherman, ressaltando a necessidade de entender a gramática do extremismo político.
Gherman também abordou a “pedagogia do ódio”, que se refere a como as pessoas aprendem a odiar e a quem direcionar esse ódio. “Essas perspectivas desenvolvem a partir de uma noção de pedagogia mesmo, eles aprendem a odiar, aprendem quem odiar, aprendem como odiar e a gente hoje tá pensando em como fazer uma pedagogia reversa”, explicou.
O autor destacou que essa retórica de destruição, que se traduz em um “nós contra eles”, remete a momentos históricos de fascismo. Ele mencionou o crescimento do “sionismo cristão” no Brasil, que mistura categorias que, segundo ele, degeneram uma à outra. “Essa agenda tem a ver com uma esperança de que o mundo seja efetivamente estabelecido por pessoas que pensam necessariamente igual”, afirmou.
Gherman enfatizou a importância de disputar a religião, propondo uma abordagem inclusiva e solidária, em vez de uma que promova o ódio e a exclusão. “Se a gente não disputa, a gente vai estar dando de bandeja uma experiência muito importante para a humanidade na mão do extremismo político”, alertou.
Sobre o projeto de lei da deputada Tabata Amaral (PSB), Gherman expressou preocupação. “A proposta da Tabata Amaral é uma proposta baseada numa perspectiva sobre o antissemitismo instrumentalizada politicamente e instrumentalizada por um debate sobre Israel-Palestina. É uma proposta que tende a produzir silenciamento do debate público”, concluiu.

