O cineasta francês Olivier Assayas, aos 71 anos, celebra quatro décadas de carreira e lança o filme O Mago do Kremlin nos cinemas brasileiros. O longa adapta o romance homônimo de Giuliano da Empoli e explora os bastidores do poder de Vladimir Putin na Rússia.
A trama retrata os últimos 40 anos da política russa pela perspectiva de Vadim Baranov, interpretado por Paul Dano, que é inspirado no ex-vice-primeiro-ministro Vladislav Surkov. Baranov, um ex-diretor de teatro, utiliza suas habilidades artísticas para manipular a política, refletindo sobre a maleabilidade dos princípios pessoais diante do poder.
Em entrevista, Assayas comentou sobre a conexão entre seu protagonista e a realidade política. Ele destacou que a jornada de Baranov é representativa de muitos artistas de sua geração. ‘Cresci na Europa do pós-guerra, com o espírito do punk rock’, disse. ‘Quando visitei a Rússia nos anos 1990, percebi uma energia semelhante na juventude de lá, que acreditava na mudança.’
Assayas também abordou a influência da cultura contemporânea na política. ‘Hoje, me irrito com a ignorância da política moderna’, afirmou. ‘As gerações mais jovens têm acesso a uma simplificação do que acontece, influenciada pela propaganda na internet.’ Para ele, a cultura ainda pode influenciar, mas a política pós-moderna está à mercê da propaganda.
O cineasta comparou O Mago do Kremlin a seus filmes anteriores, como Espionagem na Rede e Personal Shopper, afirmando que os temas de manipulação e ilusão são recorrentes em sua obra. ‘É como se Espionagem na Rede tivesse tomado conta do mundo e sido projetado para dentro da política moderna’, disse.
Assayas também refletiu sobre a natureza da internet e suas consequências. ‘Acho a ferramenta extraordinária, mas viciante’, comentou. ‘Observar o efeito das redes sociais em minhas filhas é aterrorizante, pois as separa da realidade.’
Sobre seus filmes com temas políticos, como Carlos, o Chacal e Wasp Network, Assayas explicou que cada projeto surgiu de forma única e que O Mago do Kremlin é singular, focando na invenção do poder e nas entranhas da política.
Por fim, o cineasta falou sobre a liberdade criativa no cinema europeu independente, afirmando que os gêneros narrativos permitem experimentar novas abordagens. ‘Discordo da ideia de que o cinema de gênero limita os artistas. Pelo contrário, ele expande nossos limites’, concluiu.

