O mito de que mulheres indígenas foram ‘pegas no laço’ ilustra a violência histórica contra essas mulheres no Brasil. Mirna Kambeba Omágua Yetê Anaquiri, doutora em arte e cultura visual pela Universidade Federal do Sul da Bahia, explica que essa expressão reflete a colonização e os relacionamentos forçados com homens brancos.
Suelen Siqueira Julio, especialista em história do Brasil Colonial, destaca que o termo ‘mito’ se refere a narrativas que explicam origens, e que essa história se propagou principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Ela observa que a trivialização desse mito não deve obscurecer a realidade brutal enfrentada por mulheres indígenas.
““É uma história que precisa ser contada com multiplicidade, precisa ser contada com crítica. Isso não é uma história da Disney, muitas mulheres foram, sim, pegas à força.””
O artigo publicado em 2025 na revista Science, intitulado ‘Admixture’s impact on Brazilian population evolution and health’, analisou 2,7 mil brasileiros e revelou que a linhagem paterna é predominantemente europeia (71%), enquanto a linhagem materna apresenta 42% de ancestralidade africana e 35% indígena. Esses dados corroboram a história de apropriação de mulheres negras e indígenas por homens brancos.
Apesar de a realidade de violência contra mulheres indígenas remeter ao passado, um levantamento da Gênero e Número aponta que os registros de violência contra essas mulheres aumentaram 258% entre 2014 e 2023, enquanto a média nacional foi de 207% entre todas as brasileiras. Os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) mostram um aumento de 297% nos registros de violência sexual contra mulheres indígenas.
Mirna Anaquiri menciona o caso de duas mulheres Pataxó encontradas mortas em Porto Seguro, na Bahia, para enfatizar que a violência persiste. Ela defende que a sociedade brasileira deve se manifestar contra essa realidade e criar novas narrativas sobre mulheres indígenas.
““Se muitas foram pegas no laço, a gente tem desatado esse nó. Se essa história foi silenciada, eu vou erguer minha voz e vou criar outras narrativas além dessas de violências e de desgraça.””
Suelen Siqueira Julio também relaciona a violência contra mulheres indígenas à apropriação ilegal de terras demarcadas, destacando que as invasões de terra continuam a ocorrer e são acompanhadas de estupros. Além disso, ela observa que mulheres indígenas enfrentam vulnerabilidade social, tanto em contextos aldeados quanto em áreas urbanas, como favelas.


