O fenômeno conhecido como quiet vacationing tem se tornado comum entre profissionais que trabalham remotamente ou em regime híbrido. Essa prática permite que o trabalhador se ausente de suas atividades de forma informal, mantendo a aparência de presença nas ferramentas de trabalho, como responder mensagens e participar de reuniões, enquanto na verdade está descansando ou viajando.
Esse comportamento, também chamado de férias silenciosas no Brasil, surgiu como um subproduto da cultura de trabalho pós-pandemia. A tendência ganhou força em 2024, após uma pesquisa da empresa americana Harris Poll indicar que cerca de 28% dos trabalhadores e 37% dos millennials já adotaram essa prática. O medo de parecer desengajado em um mercado de trabalho instável é uma das razões por trás dessa estratégia.
Embora o descanso seja necessário devido à sobrecarga de trabalho, muitos profissionais sentem que precisam disfarçar suas ausências para serem aceitos. Essa situação expõe uma contradição no ambiente corporativo atual, onde, apesar do discurso sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional, muitas culturas organizacionais ainda valorizam a disponibilidade constante.
No contexto dos Estados Unidos, os trabalhadores podem negociar um banco de dias de folga remunerada, conhecido como PTO, que expira se não utilizado até o fim do ano. Apenas 48% dos americanos utilizam integralmente esse banco, o que significa que as férias silenciosas podem prejudicar os empregados, que acabam descansando pela metade e vendo suas folgas expirarem.
No Brasil, a situação é diferente. Para os trabalhadores sob o regime da CLT, o quiet vacationing não resulta em perda financeira, pois a concessão de férias é prerrogativa da empresa. Assim, a motivação para essa prática é cultural, permitindo pequenas pausas que os empregados temem pedir oficialmente.
Por outro lado, profissionais que atuam como PJ não têm a mesma proteção e, ao parar de trabalhar, podem perder renda ou clientes. Por isso, muitos optam pelo quiet vacationing para evitar expor sua ausência e evitar prejuízos financeiros.
A cultura de disponibilidade permanente, impulsionada por jornadas longas e pela conectividade constante, contribui para a dificuldade de separar vida pessoal e profissional. Pesquisas mostram que 61% dos trabalhadores acreditam que permanecer conectado é um sinal de dedicação, tornando o pedido de férias um risco simbólico para a carreira.
As ferramentas de comunicação utilizadas no trabalho remoto, como Slack, Teams e WhatsApp corporativo, facilitam esse comportamento, permitindo respostas rápidas que mantêm a aparência de atividade, mesmo quando o profissional está afastado. O resultado é um descanso fragmentado, que raramente cumpre sua função de recuperação física e mental.
A questão que se coloca é se a necessidade de ‘férias clandestinas’ é um problema dos empregados ou uma consequência de uma cultura corporativa que ainda vê o descanso como um privilégio.


