Um estudo recente publicado na revista científica The Lancet Healthy Longevity aponta que a solidão é um fator de risco significativo para pacientes idosos com câncer. O consenso internacional, que envolveu 40 especialistas de 14 países, destaca que o isolamento social afeta diretamente a sobrevida, a intensidade dos sintomas e a adesão ao tratamento oncológico.
A solidão é definida como uma experiência subjetiva e negativa, resultante da discrepância entre as relações sociais desejadas e as que realmente existem. No contexto da oncologia geriátrica, essa lacuna pode ser fatal. O artigo indica que a solidão atua como um preditor independente de mortalidade, influenciando mecanismos biológicos como a inflamação sistêmica e a resposta imunológica comprometida associada ao estresse crônico.
A oncologista Patrícia Taranto, do Einstein Hospital Israelita, analisa que o isolamento cria uma barreira invisível que pode comprometer o desfecho do tratamento. “Uma vez que o paciente começa a diminuir a adesão e perde a motivação por conta de um sentimento de solidão, isso pode afetar significativamente o modo como ele vê sua relação com a doença e os objetivos do tratamento”, afirma.
Esse ciclo de negligência pode levar à interrupção do acompanhamento adequado, resultando em piora na qualidade de vida e aumento do risco de morte. A solidão e a depressão, embora frequentemente confundidas, são condições distintas. A solidão está relacionada à percepção de insuficiência nas relações sociais, enquanto a depressão envolve sintomas persistentes como baixa autoestima e anedonia.
O psiquiatra e psicogeriatra Marcus Kiiti Borges, membro do departamento de Psicogeriatria da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), aponta que a solidão em idosos está frequentemente ligada à perda de relações sociais devido a eventos adversos, como a morte de cônjuges e amigos, além de problemas de saúde que limitam a mobilidade.
O isolamento prolongado pode desregular o eixo neuroimunoendócrino, aumentando os níveis de cortisol e intensificando processos inflamatórios, o que é crítico para pacientes oncológicos com imunidade já fragilizada. O consenso também destaca que o impacto da solidão é mais severo em indivíduos expostos a vulnerabilidades, como pobreza e residência em áreas rurais.
Para reverter esse cenário, os autores do artigo defendem uma abordagem multidisciplinar que inclua oncologistas, geriatras, psicólogos e assistentes sociais. Estratégias práticas sugeridas incluem grupos de apoio presenciais, atividade física em equipe e visitas domiciliares, que são essenciais para pacientes com mobilidade reduzida. “O contato humano pode propiciar mais empatia e cuidado, auxiliando na melhora da saúde mental do paciente e aumentando a adesão ao tratamento”, conclui Taranto.


