Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram que ondas de ultrassom de alta frequência podem eliminar vírus como o SARS-CoV-2 e o H1N1 sem danificar células humanas. O estudo foi publicado na Scientific Reports.
O fenômeno, chamado ressonância acústica, provoca alterações estruturais nas partículas virais, levando à sua ruptura e inativação. “É mais ou menos como combater o vírus no grito. Provamos nesse estudo que a energia das ondas sonoras provoca uma mudança morfológica nas partículas virais a ponto de elas explodirem, em um fenômeno comparável ao que acontece com uma pipoca”, explicou Odemir Martinez Bruno, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP e coordenador do estudo.
A inativação por ultrassom de vírus envelopados abre novas possibilidades de tratamento para doenças virais. A equipe já realiza testes in vitro contra outras infecções, como dengue, chikungunya e zika.
“Embora ainda esteja distante do uso clínico, trata-se de uma estratégia promissora contra vírus envelopados em geral, já que o desenvolvimento de antivirais químicos é complexo e de difícil resultado. Além disso, é uma solução ‘verde’, pois não gera resíduos, não causa impacto ambiental e não favorece a resistência viral”, afirmou Flávio Protásio Veras, professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) e bolsista de pós-doutorado da FAPESP.
A investigação contou com a participação de especialistas do Centro de Pesquisa em Virologia e do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), vinculados à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCFRP-USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A colaboração incluiu também Charles Rice, professor da Universidade Rockefeller e prêmio Nobel de Medicina de 2020.
A descoberta surpreendeu os pesquisadores, pois contradiz teorias clássicas da física. “O fenômeno é totalmente geométrico. Partículas esféricas, como muitos vírus envelopados, absorvem melhor a energia das ondas de ultrassom”, explicou Bruno.
Ele destacou que a técnica não tem o objetivo de ser aplicada para descontaminação, já que o ultrassom é utilizado para a profilaxia de equipamentos odontológicos e cirúrgicos, mas por meio de outro fenômeno físico, a cavitação.
“Enquanto a cavitação ocorre em baixas frequências e destrói tanto o vírus quanto os tecidos, a ressonância acústica atua em altas frequências [3-20 MHz]”, comentou Bruno. A energia sonora se acopla à estrutura viral, excitando vibrações internas que levam à ruptura mecânica do envelope viral sem alterar temperatura ou pH do meio.


