O cantor Zé Felipe revelou, em um podcast divulgado nesta semana, que enfrentou um vício em remédios para dormir após o término de seu casamento com Virginia Fonseca. Ele compartilhou que, devido a crises de ansiedade, desenvolveu uma dependência da medicação para conseguir dormir. “Tomava, sei lá, 10 comprimidos para dormir, mais 35 gotas de um outro”, contou.
Zé Felipe aproveitou a oportunidade para conscientizar seus fãs sobre a importância de cuidar da saúde mental, descrevendo o uso dos fármacos como “uma fuga” dos próprios sentimentos e uma resistência em buscar terapia. O relato do cantor ilustra um cenário mais amplo no Brasil, onde os benzodiazepínicos, como o clonazepam (vendido como Rivotril), diazepam, lorazepam e outros, além do zolpidem, estão entre os medicamentos mais utilizados para tratar a insônia.
Esses medicamentos têm uma longa história no país, sendo comercializados desde os anos 1960. Nos anos 1990, uma nova geração de medicamentos para dormir, conhecidos como drogas Z, foi introduzida, incluindo o zolpidem. Diferentemente dos benzodiazepínicos, que atuam em casos de insônia e crises de ansiedade, essas substâncias agem de forma mais seletiva nos circuitos cerebrais do sono, o que as tornava uma opção aparentemente menos arriscada na época.
Em 2024, foram vendidas mais de 130 milhões de caixas de benzodiazepínicos no Brasil, com 31 milhões apenas de clonazepam, colocando o país entre os maiores consumidores dessa classe de medicamentos no mundo. A demanda pelo zolpidem aumentou significativamente durante a pandemia de covid-19, com quase 22 milhões de caixas comercializadas em 2021, um aumento de três milhões em relação a 2019.
Os benzodiazepínicos desempenham um papel importante na medicina, sendo utilizados em crises agudas de ansiedade, ataques de pânico e insônia grave. “Eles são excelentes para momentos de crise”, destacou André Negrão, coordenador do Ambulatório de Sedativos e Hipnóticos do Centro de Álcool e Drogas do Instituto Perdizes da USP. No entanto, o uso prolongado pode levar à dependência, com o corpo desenvolvendo tolerância e exigindo doses cada vez maiores para o mesmo efeito.
A dependência é um dos principais problemas associados ao uso contínuo desses medicamentos, levando a crises de abstinência quando há tentativa de interrupção. “A pessoa tem taquicardia, sudorese, tontura, insônia, sensação de cabeça ‘fora do ar’… e acaba usando o medicamento para lidar com a própria falta dele”, explicou Negrão.
Além disso, o uso indevido de benzodiazepínicos pode prejudicar a memória, pois atuam sobre o receptor GABA, responsável por inibir o sistema nervoso central. Isso pode resultar em uma sensação de apatia e comprometimento das faculdades mentais. A neurologista Andrea Bacelar, especialista em Medicina do Sono, alertou que muitos usuários são pessoas mais velhas, que mantêm o hábito de uso como um gesto ritualístico, o que pode ser problemático à medida que a expectativa de vida aumenta.
As drogas Z também apresentam riscos semelhantes, com a tolerância se desenvolvendo rapidamente. Elas têm uma meia-vida curta, o que pode levar à repetição de doses e à dependência. “É um problema muito brasileiro. Não há algo nesse mesmo nível em outros locais”, afirmou Bacelar. A combinação de amnésia com parassonia é outro efeito preocupante, onde o cérebro entra em um estado híbrido entre sono e vigília, levando a comportamentos automáticos sem plena consciência.
Quando se trata de interromper o uso, o acompanhamento médico é essencial, pois a abstinência pode ser intensa e, em alguns casos, pode ser necessária a internação para uma retirada segura. As drogas Z devem ser indicadas apenas em crises agudas de insônia, com um tempo máximo de uso de duas a quatro semanas, e o tratamento deve ser sempre alinhado com o paciente.

