Elena Ferrante, escritora italiana anônima, publicou em 2002 “Dias de Abandono”, que narra a desintegração existencial de Olga após o abandono do marido. A obra acompanha o estado mental da protagonista e desconstrói a imagem da mulher que sofre de forma domesticada.
“Dias de Abandono” apresenta Olga, mulher de trinta e poucos anos, mãe de dois filhos, que é abandonada pelo marido Mario, que parte com uma mulher mais jovem. O livro não foca no abandono em si, mas nas consequências existenciais que ele provoca na protagonista.
A escrita acompanha o colapso mental de Olga: no início, a prosa é controlada, mas à medida que seu estado se agrava, as frases tornam-se curtas, caóticas e repetitivas, refletindo sua desintegração. Uma cena emblemática mostra Olga trancada no apartamento, incapaz de abrir a porta enquanto cuida dos filhos e do cachorro agonizante.
Ferrante opta por narrar exclusivamente pela perspectiva de Olga, tornando-a uma narradora não confiável, pois seu colapso distorce a percepção dos fatos. Mario e a amante são apresentados como funções narrativas, sem acesso a suas motivações. A raiva de Olga se materializa em um episódio em que Mario leva as joias de família para a amante, simbolizando a redistribuição do passado.
O existencialismo de Søren Kierkegaard é citado para explicar a ruminação de Olga, que representa uma recusa inconsciente de integrar a realidade. O livro termina com uma despedida discreta, na qual Olga para de tentar entender Mario e o vê com indiferença, sem perdão, mas sem a construção do monstro.

