O centenário de nascimento de Milton Santos, celebrado em 3 de maio, mobiliza pesquisadores, ativistas e o público em uma série de eventos que revisitam o legado do geógrafo baiano. Reconhecido mundialmente, Santos teorizou sobre as desigualdades e a produção do espaço, influenciando gerações e provocando debates sobre racismo, periferias e alternativas sociais.
Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, Bahia, em 1926, e se tornou referência internacional ao propor que o espaço urbano é resultado de escolhas políticas e econômicas, não apenas cenário neutro da vida social. Suas ideias, como a teoria dos circuitos da economia urbana, seguem atuais e são aplicadas em pesquisas no Brasil, África e Europa. Para ele, a divisão entre circuitos superior e inferior explica como grandes empresas e pequenos comércios coexistem, revelando dinâmicas de exclusão e adaptação nas cidades.
O impacto de Santos vai além da geografia. Negro, enfrentou o racismo estrutural na academia e inspirou intelectuais como Catia Antonia da Silva, professora da UERJ, que destaca a importância de sua obra para compreender as desigualdades raciais e sociais. Santos afirmava que ser negro e intelectual no Brasil é um desafio duplo, marcado por obstáculos cotidianos e pela resistência à crítica no ambiente acadêmico.
Em livros como “Por uma outra globalização”, Santos analisou como a infraestrutura e a tecnologia, ao invés de promoverem integração, aprofundam desigualdades e concentram riqueza. Seu conceito de “meio técnico-científico-informacional” descreve a coexistência de regiões altamente conectadas e áreas marginalizadas, resultado de decisões que beneficiam determinados grupos sociais.
Apesar das críticas ao modelo vigente, Santos apontava caminhos de transformação. Defendia que populações locais podem apropriar-se das redes e tecnologias para criar alternativas econômicas e sociais, tornando o território espaço de resistência e reinvenção. Pesquisadores como Livia Cangiano, da USP e UEMA, ressaltam que suas teorias incentivam a análise concreta das desigualdades e a valorização das racionalidades produzidas nas periferias urbanas.
O centenário de Milton Santos é celebrado com seminários, palestras e debates em instituições como USP, Sesc e Universidade Federal do Tocantins. Os eventos, realizados em formato híbrido, reúnem especialistas e o público para discutir a atualidade de sua obra e os desafios para a construção de cidades mais justas. O legado de Santos permanece fundamental para pensar o Brasil e o mundo contemporâneo.

