Pesquisadores da UFRJ identificaram sertralina, o antidepressivo mais prescrito no Brasil, no tecido cerebral de tubarões-martelo na costa do Rio de Janeiro. A descoberta, feita pelo Projeto EcoShark, aponta para a bioacumulação de resíduos farmacêuticos em espécies ameaçadas.
O monitoramento realizado pelo Projeto EcoShark, coordenado por Mariana Batha Alonso, identificou o fármaco em tubarões-martelo, classificados como espécies criticamente ameaçadas de extinção. Os animais foram capturados acidentalmente em redes de pesca nas áreas de Recreio, Barra da Tijuca e Copacabana. Como predadores de topo, os tubarões bioacumulam contaminantes presentes na cadeia alimentar e no sedimento.
A presença da sertralina no cérebro dos animais está ligada ao sistema de saneamento. Grande parte do esgoto gerado no Rio de Janeiro, cerca de 47%, não recebe tratamento adequado para remover compostos farmacêuticos. Esses resíduos são lançados no oceano, sendo absorvidos por organismos marinhos, e o fármaco se acumula em tecidos lipídicos dos tubarões.
A questão da contaminação não é isolada. Um estudo anterior em Bahamas detectou cocaína, cafeína e analgésicos em tubarões. A ciência aponta que, embora a detecção não confirme alteração comportamental, testes em laboratório mostram que a sertralina afeta o sistema serotoninérgico de peixes.
A descoberta toca em três crises: saúde mental, saneamento e conservação. Os pesquisadores defendem que protocolos ambientais brasileiros devem incluir o rastreamento sistemático de fármacos em fauna marinha, exigindo modernização das estações de tratamento de esgoto.

