Pesquisadores brasileiros e britânicos reconstituíram a dinâmica do surto de febre amarela silvestre que atingiu a Região Metropolitana de São Paulo há nove anos. O estudo, divulgado em março, calculou o número básico de reprodução do vírus em 8,2, indicando alto potencial de dispersão em ambiente florestal.
O primeiro alerta sobre o surto ocorreu em 9 de outubro de 2017, após a descoberta de uma carcaça de macaco no Horto Florestal, na zona norte da capital. Em seis semanas, o vírus se espalhou, matando cerca de 80 bugios que viviam no parque. Um docente do Imperial College London, coordenador da investigação, afirmou que foi a primeira vez que o vírus avançou de forma tão explosiva em um ambiente florestal dentro da cidade.
O cálculo do número básico de reprodução, ou R zero, mostrou que um único bugio infectado podia transmitir o vírus a outros 8 animais, em média. Um professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP comparou esse dado ao da covid-19, que variava entre 3 e 4. Pesquisas anteriores já apontavam parques estaduais como possíveis portas de entrada, mas a intensidade da disseminação surpreendeu os cientistas.
Um especialista alertou que a vacinação contra febre amarela precisa ser antecipada. Segundo ele, a janela entre o primeiro alerta e o pico de transmissão é de duas a três semanas, e a vacina leva de 10 a 12 dias para proteger a população. Dados da pesquisa indicam que o mosquito Haemagogus leucocelaenus foi central na explosão de casos.
A análise combinou monitoramento de mosquitos, sequenciamento metagenômico e modelagem matemática. Os autores destacam a importância da abordagem de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental, alertando que o que ocorre na borda da mata impacta diretamente a saúde pública.

