Sedimentos recuperados na Bacia do Pará-Maranhão revelam que a Amazônia teve uma história climática mais complexa nos últimos 2 milhões de anos. O testemunho CDH-79, estudado por Paul Baker e Cléverson Guizan, indica que períodos glaciais foram associados a eventos extremamente úmidos.
O testemunho sedimentar CDH-79 foi recuperado em fevereiro de 2010, durante expedição do navio oceanográfico R/V Knorr, na margem continental brasileira. O projeto, liderado por Paul Baker e Cléverson Guizan, buscava entender a evolução climática e biogeográfica da América do Sul tropical no Quaternário. A análise inicial do material, situado a 2.345 metros de profundidade, apontou uma idade próxima de 2 milhões de anos, um registro considerado um dos mais longos para a região amazônica.
A pesquisa desafiou a ideia anterior de que os períodos glaciais na Amazônia eram marcados por um clima mais seco e fragmentado. Os resultados, divulgados em periódico científico, mostram que a variabilidade hidroclimática amazônica foi muito mais dinâmica. Em certos momentos, os períodos glaciais estiveram ligados ao aumento da descarga sedimentar e à intensificação de eventos muito úmidos, conectados a mudanças climáticas no Atlântico Norte.
O estudo também abordou a questão de quem produz ciência. Um dos pesquisadores citou sua trajetória, que começou em comunidade vulnerável no Rio de Janeiro, e como o acesso ao ensino superior permitiu a produção de conhecimento de ponta. A experiência reforça que o talento científico pode emergir de locais historicamente excluídos dos espaços de produção de saber.

