Pesquisadores do INCT-CPCT descobriram que grupos antivacina no WhatsApp utilizam artigos científicos, mesmo de periódicos predatórios, para sustentar suas posições contra a vacinação. A análise, apresentada na 78ª Reunião Anual da SBPC, mostra que esses grupos se apropriam do vocabulário científico para validar crenças conspiratórias.
Segundo Marcelo Alves dos Santos Júnior, professor da PUC-Rio e coordenador da pesquisa, rótulos como “negacionismo” não explicam totalmente essas comunidades. Em vez de negar a ciência, elas usam sua estrutura discursiva para validar teorias conspiratórias. Thaiane Moreira de Oliveira, professora da UFF e integrante do INCT-CPCT, explica que a estratégia manipula a noção de controvérsia para forjar “especialistas alternativos” e atrasar regulações.
O modelo de negócio da mentira foi exemplificado por um jornalista que apurou a criação da “síndrome pós-spike”, uma condição sem respaldo científico. Os responsáveis publicaram um relato de caso em revista científica, que foi posteriormente retratado, e usaram-no para atrair pacientes, gerando lucros com consultas de R$ 3,6 mil.
Santos Júnior atribui o cenário à lógica econômica das plataformas digitais. O controle financeiro da informação migrou dos veículos de comunicação para as grandes empresas de tecnologia, que priorizam conteúdo de baixa qualidade por ser mais barato de rentabilizar via algoritmos. A chegada da inteligência artificial generativa agrava o quadro, com o “efeito clique zero” ameaçando o modelo de negócio do jornalismo profissional.


