Pesquisadores da Universidade de São Paulo e do Museu Nacional de História Natural de Paris analisaram mais de cem espécies de grilos arborícolas e descobriram que o hábito de cantar foi perdido pelo menos onze vezes na história evolutiva do grupo. A perda do som e da audição ocorre de forma independente, um fenômeno chamado evolução convergente.
O canto dos grilos, que existe há cerca de 200 milhões de anos, é usado pelos machos para atrair fêmeas. No entanto, o estudo, publicado na revista científica Journal of Systematics and Evolution, aponta que muitas espécies abandonaram esse comportamento. A análise genética permitiu datar quando essas mudanças ocorreram, mostrando que o ancestral do grupo cantava e escutava.
A perda do canto pode ser uma estratégia de sobrevivência. O som atrai predadores e parasitas, como moscas que depositam larvas sobre os machos. Em ambientes onde o silêncio é mais seguro, a seleção natural favorece os indivíduos mudos. Além disso, o local de moradia influencia: grilos em galerias de madeira ou em plantas baixas têm menor propagação sonora.
O estudo também identificou exceções notáveis. Foram encontrados grilos que perderam a audição, mas mantêm o canto, e outros que não cantam, mas preservam os ouvidos. Para estes, a audição pode servir para detectar predadores ou a comunicação migra para vibrações, um processo conhecido como biotremologia.

