Um desastre no Himalaia, que causou pelo menos 160 mortes após o deslocamento de uma massa de gelo e rochas, acendeu o alerta para riscos semelhantes na América do Sul. Especialistas indicam que a Cordilheira dos Andes apresenta condições geológicas que favorecem grandes deslizamentos, avalanches e corridas de detritos.
Bruno Collaço, sismólogo do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), explica que o evento no Nepal ocorreu por uma combinação de encostas inclinadas, degradação do permafrost e lagos glaciais. O deslocamento da massa gerou energia sísmica equivalente a um tremor de magnitude 5,2, embora não tenha sido causado por um terremoto.
Na região andina, as áreas de atenção incluem Ancash e Cusco, no Peru, a Cordilheira Real, na Bolívia, além de vulcões no Equador e Colômbia. Chile e Argentina também possuem locais vulneráveis. Em 1934, Mendoza, na Argentina, registrou o rompimento de um lago represado pelo Glaciar Grande del Nevado.
Diogo Coelho, pesquisador do Observatório Nacional, aponta que a instabilidade tectônica e chuvas extremas potencializam as corridas de detritos, que transportam lama e rochas rapidamente por vales estreitos. O risco é agravado pela ocupação humana em leques aluviais, onde os sedimentos naturalmente se acumulam.
O histórico do continente registra tragédias severas. Em 1962, uma avalanche no Peru matou entre 4 mil e 5 mil pessoas. Na Colômbia, o derretimento de geleiras do vulcão Nevado del Ruiz em 1985 deixou mais de 20 mil mortos. Outros episódios graves ocorreram em Vargas, na Venezuela, em 1999, e em Mocoa, na Colômbia, em 2017.
O aquecimento global é apontado como fator de risco, pois o derretimento do gelo que estabiliza paredes rochosas pode causar o colapso de estruturas milenares. Collaço afirma que a tendência é o aumento da frequência desses eventos devido ao aquecimento global.
No Brasil, o risco de corridas de detritos ocorre por chuvas intensas e solo inadequado, sem a presença de gelo em altitudes extremas. A Serra do Mar é a área mais suscetível, com exemplos graves como a tragédia da Serra das Araras, em 1967, e os deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, que causaram mais de 900 mortes.

