Empresas de biotecnologia da China desenvolvem ferramentas próprias de edição genética, utilizando inteligência artificial para criar enzimas que substituam a tecnologia CRISPR-Cas9. A estratégia visa evitar disputas judiciais por patentes nos Estados Unidos e garantir que o país detenha a propriedade intelectual de insumos essenciais para a agricultura e a medicina.
A startup Wimi Biotechnology Co. Ltd., sediada em Changzhou, criou a CasY7, uma proteína capaz de editar o DNA de milho e arroz. Segundo o cofundador da empresa e professor da Universidade Jiao Tong de Xangai, Lu Yuming, a equipe analisou mais de 1 milhão de proteínas candidatas por meio de dados de sequenciamento metagenômico. A IA foi utilizada para aprimorar a atividade enzimática de candidatos quase funcionais, atingindo 87,7% de eficiência no milho e 82,9% no arroz.
O movimento ocorre para evitar complicações legais ligadas à Cas9, cujas patentes são alvo de disputa entre o Broad Institute de Harvard, o MIT e a Universidade da Califórnia, Berkeley. Uma decisão de 2022 de um tribunal de apelações dos EUA confirmou a reivindicação do Broad Institute, embora o processo tenha sido colocado em suspenso por um tribunal federal em maio de 2025.
Além da Wimi Biotech, outras duas companhias desenvolveram sistemas próprios. A Shandong Shunfeng Biotechnology Co. Ltd. criou as variantes Cas-SF01 e Cas-SF02, já licenciadas para empresas de sementes no Brasil, Estados Unidos, Alemanha e Índia. A Beijing Qi Biodesign Biotechnology Co. Ltd. desenvolveu o sistema de nuclease TranC e a ferramenta de edição de bases QBEmax.
Lu Yuming informou que versões da CasY7 já estão sendo aplicadas em medicamentos que passam por ensaios clínicos na China e nos Estados Unidos. O professor explicou que, enquanto encontrar uma enzima custa centenas de milhares de yuans, evoluí-la para uso em terapias exige investimentos de dezenas de milhões.
A ambição de Pequim foi oficializada no plano quinquenal para a agricultura, divulgado em junho de 2026. O documento solicita explicitamente a criação de novas ferramentas de edição genética e a implementação de edições multialvo mais eficientes, sinalizando que o objetivo do governo é o domínio da tecnologia de base, e não apenas a melhoria das culturas.

