Cerca de 80% dos casos de câncer de cabeça e pescoço no Brasil são identificados apenas em estágios avançados, segundo estudo de 2025 do Instituto Nacional de Câncer (Inca). A detecção tardia ocorre devido à ausência de sintomas iniciais e à desinformação de pacientes e profissionais de saúde, o que compromete as chances de cura.
Tumores nessa região podem acometer a boca, língua, laringe, fossas nasais, glândulas salivares, tireoide e pele. O cirurgião Renan Bezerra Lira, coordenador de pós-graduação no Hospital Israelita Albert Einstein, explicou que a falta de sinais claros nas primeiras fases faz com que as doenças se desenvolvam silenciosamente.
Carlos Eduardo Santa Ritta Barreira, coordenador na Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, afirmou que sintomas iniciais são frequentemente confundidos com problemas simples, como rouquidão, dor de garganta ou aftas. A ciência busca agora biomarcadores para identificar formas agressivas de tumores de células escamosas de maneira mais ágil.
O carcinoma de orofaringe, que atinge a parte da garganta onde ficam as amígdalas, teve a incidência aumentada nos últimos anos. Segundo Lira, esse tipo de tumor está fortemente relacionado ao papilomavírus humano (HPV), podendo atingir adultos jovens sem outros fatores de risco. A vacinação contra o vírus está disponível na rede pública para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos.
Outros fatores de risco incluem o tabagismo, consumo de álcool, drogas e exposição solar excessiva sem proteção. Contatos com solventes, poeira de madeira e radiação também podem estar associados. Já os casos de câncer de tireoide crescem entre mulheres de 30 a 60 anos, reflexo da melhora nos exames de imagem para detectar nódulos pequenos.
Sinais de alerta incluem feridas na boca que não cicatrizam em duas semanas, manchas brancas ou vermelhas na gengiva e rouquidão por mais de três semanas. Caroços palpáveis no pescoço ou obstrução nasal persistente também requerem avaliação. Qualquer alteração que dure mais de 15 dias deve ser investigada por um médico.
Avanços em cirurgias menos invasivas e no uso de robótica aumentaram a sobrevida dos pacientes. A precisão desses procedimentos reduziu a necessidade de quimioterapia, radioterapia pós-cirúrgica ou técnicas reconstrutivas complexas.


