O governo dos Estados Unidos estuda reduzir a emissão de títulos públicos com prazos de dez anos ou mais para controlar o custo do endividamento. A medida, analisada por especialistas do Bank of America, rompe com o modelo de gestão de dívida previsível adotado por Washington desde a década de 1980.
O rendimento dos títulos americanos de 30 anos atingiu em agosto o maior nível desde 2007. Para conter a alta, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, dobrou o programa de recompra de papéis longos para ao menos US$ 4 bilhões por operação. Apesar da medida e de discursos do Federal Reserve (Fed), as taxas não apresentaram queda sustentável.
A pressão financeira é elevada: os juros da dívida somaram perto de US$ 1,2 trilhão nos primeiros dez meses do ano fiscal, alta de 15% na comparação anual. Analistas indicam que a próxima etapa pode ser o corte nos leilões de títulos de 20 e 30 anos já em novembro, priorizando a rolagem da dívida em prazos mais curtos.
Essa estratégia de encurtamento do perfil da dívida é comum em países emergentes, como o Brasil. No caso brasileiro, metade da dívida pública federal está atrelada à taxa Selic, e o Tesouro Nacional elevou para 53% a fatia esperada desses títulos ao fim do ano. Ambas as situações resultam na perda da capacidade de fixar custos de endividamento por longos períodos.
O Merrill Lynch Wealth Management pondera que a dívida em poder do público, de cerca de US$ 32 trilhões (aproximadamente 100% do PIB), ainda é administrável. A instituição lembra que o Japão também utilizou emissões curtas para financiar gastos e elevar o PIB nominal enquanto reduzia o déficit primário.
Contudo, o risco de refinanciamento aumenta. O volume de vencimentos pode chegar a US$ 323 bilhões em 2028. Segundo cálculos do professor Arvind Krishnamurthy, da Stanford Graduate School of Business, a ausência de demanda estrangeira por ativos em dólar poderia depreciar a moeda americana em 7,6% e elevar ainda mais os rendimentos dos títulos.


