Gestores de fundos multimercado independentes no Brasil estão fechando suas empresas e migrando para grandes bancos para manter a operação de seus recursos. O movimento é impulsionado por taxas de juros de dois dígitos, que tornam a captação de clientes difícil e favorecem produtos de renda fixa.
Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, anunciou no início deste mês a transferência da gestão de seus fundos para o Bradesco. Segundo Fraga, o momento é cíclico e ruim para os multimercados, que enfrentam concorrência de produtos com vantagens tributárias e retornos baixos, ficando abaixo do CDI nos últimos anos.
A tendência de absorção de equipes independentes por instituições financeiras também é vista no Itaú Asset Management. A gestora contratou no mês passado Luiz Eduardo Portella, fundador da Novus Capital, e incorporou a Solana Capital em junho, além de ter trazido Eduardo Zilberman, ex-SPX Capital, para a pesquisa econômica no início do ano.
O cenário atual reverte o movimento ocorrido há cerca de uma década, quando gestores deixaram bancos para abrir casas próprias aproveitando a queda dos juros, que chegaram a 2% durante a pandemia. Com a volta dos juros acima de 10% a partir de 2022, investidores migraram para a renda fixa e fugiram do risco.
Dados da Associação Brasileira das Entidades de Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que o patrimônio de sete das maiores gestoras independentes em estratégias macro locais caiu para cerca de R$ 89 bilhões (US$ 17 bilhões) desde 2022. O número de fundos macro recuou 20% desde 2021, totalizando 743 em julho.
A indústria de multimercados acumula saída líquida de recursos pelo quinto ano consecutivo, com resgates de R$ 672 bilhões desde 2022. Em contrapartida, fundos macro de grandes bancos quase dobraram de patrimônio desde 2019, atingindo R$ 542 bilhões em junho, conforme apuração baseada em dados da Bloomberg.
Pedro Rudge, diretor da Anbima, explicou que a estrutura de bancos atrai executivos que não conseguem sustentar negócios sozinhos, pois elimina custos de compliance e back office. Fraga afirmou que a situação reflete um déficit fiscal elevado, com o governo tomando empréstimos a juros altos por prazos longos.


