Há homens cuja importância não ficou gravada em monumentos, mas em livros de contas, inventários, atas, fichas de admissão e pequenos registros administrativos. Na Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, no coração do Centro do Rio, muitos desses documentos levam a um mesmo nome: Faustino Chaves. Era um homem minucioso. Bens da igreja precisavam estar relacionados. Objetos levados para reparos deveriam ter sua saída registrada. Inventários precisavam ser mantidos. Até a memória dos irmãos falecidos e das obrigações assumidas para com eles merecia controle. Décadas depois, quando a Lapa começou a reconstruir a história de seu patrimônio e a procurar peças desaparecidas ao longo do século XX, aqueles papéis voltaram a ter utilidade. Mas reduzir Faustino a um zeloso mordomo de igreja seria perder justamente aquilo que torna sua história tão interessante. Antes de cuidar de alfaias religiosas, ele aprendera a cuidar de ouro, relógios e pedras preciosas. Foi empregado de joalheria, tornou-se fabricante de joias, empresário estabelecido na Rua Uruguaiana e dirigente da corporação dos ourives. Na Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, percorreu diferentes cargos até chegar à vice-provedoria. Na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, também aparece entre os homens de sua administração. Na Lapa dos Mercadores, foi mordomo, Diretor do Culto, benfeitor e guardião de uma memória que sobreviveria a ele. A trajetória une três universos profundamente cariocas: o comércio do Centro, a antiga ourivesaria e o mundo das irmandades. Do balcão da Terezinha à própria joalheria Faustino Chaves, em retrato preservado no Arquivo da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária.
Admitido como irmão em 1924, exerceu os cargos de definidor e tesoureiro e foi vice-provedor no ano compromissal de 1933-1934 – Arquivo da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária
Uma pesquisa acadêmica dedicada à história de Arthur Vieira, posteriormente fundador da Joalheria Meridiano, preservou uma informação preciosa sobre a juventude de Faustino. Os dois trabalharam juntos na Joalheria Terezinha, no Rio de Janeiro, ainda no início do século XX. Segundo a memória preservada pela família Vieira, o proprietário do estabelecimento não tinha herdeiros interessados em continuar o negócio. Ao encerrar aquela fase da casa, reconheceu a dedicação dos dois empregados deixando-lhes parte das joias existentes. Os caminhos dos colegas então se separaram. Arthur Vieira deixou o Rio e se estabeleceu em Juiz de Fora. Faustino permaneceu no ramo e passou a fabricar joias, chegando posteriormente a fornecer peças ao antigo companheiro. O detalhe é fundamental para compreender sua trajetória. Faustino não surgiu no comércio como simples investidor que decidiu comprar uma joalheria. Ele conhecia o ofício. Passara pelo balcão e pela oficina, aprendera a lidar com metais preciosos, relógios, consertos e objetos que, muitas vezes pequenos, representavam grandes valores para seus proprietários. E prosperou.
Em 1927, a Joalheria Therezinha — com a grafia utilizada nos anúncios da época — já aparecia estabelecida na Rua Uruguaiana, 41, entre as ruas do Ouvidor e Sete de Setembro. No ano seguinte, uma propaganda identificava Guilherme Moraes como proprietário e oferecia joias, relógios, fantasias, presentes, consertos e reformas. A casa também comprava ouro e joias usadas. Anúncio da Joalheria Therezinha quando ainda era dirigida por Guilherme Moraes, em 1928. Além do endereço na Rua Uruguaiana, 41, a propaganda registra o telefone C. 4429, número que continuaria ligado à casa depois de sua passagem para Faustino Chaves – Reprodução: Hemeroteca Digital Brasileira / Fundação Biblioteca Nacional
Além do endereço na Rua Uruguaiana, 41, a propaganda registra o telefone C. 4429, número que continuaria ligado à casa depois de sua passagem para Faustino Chaves
A fisionomia que combina curiosamente com aquilo que os papéis revelam: sobriedade e rigor. O Rio das irmandades ao qual Faustino pertenceu já teve presença muito mais visível na vida cotidiana da cidade. Isso, porém, não significa que essas instituições tenham desaparecido ou perdido importância. Candelária, Santa Casa, Glória do Outeiro e outras corporações históricas continuam administrando igrejas, patrimônio e relevantes obras assistenciais. O que se tornou menos conhecido do grande público foi o funcionamento desse universo e o significado de cargos como provedor, vice-provedor, definidor ou mordomo. Faustino circulava por ele com impressionante desenvoltura. Na década de 1940, aparece como irmão ativo da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, inclusive apresentando novos candidatos à instituição. E sua atuação também alcançou outra das grandes corporações históricas cariocas: a Santa Casa. Uma fotografia posterior, já em idade mais avançada, permite hoje devolver materialidade a essa história. Na imagem, de terno e gravata, cabelos cuidadosamente penteados e expressão séria, aparece o homem que até então surgia principalmente através de anúncios comerciais e documentos administrativos. É uma fisionomia que combina curiosamente com aquilo que os papéis revelam: sobriedade e rigor.

