Uma pesquisa com 2.163 crianças e adolescentes de São Paulo e Porto Alegre revelou que o mapeamento genético pode identificar a propensão ao desenvolvimento da depressão e a evolução do quadro até a fase adulta. O levantamento, conduzido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), indica que jovens com maior escore de risco genético apresentam piora acelerada dos sintomas.
Entre os participantes já diagnosticados com transtorno depressivo maior (TDM), o grupo com maior carga genética apresentou maior probabilidade de autolesão não suicida, como cortes, queimaduras ou pancadas no próprio corpo. Os dados foram publicados em julho na revista Biological Psychiatry.
O estudo comprova que marcadores genéticos funcionam em populações miscigenadas, como a brasileira. Até então, a maioria das pesquisas sobre risco poligênico focava em pessoas de ascendência europeia, o que limitava a confiabilidade das ferramentas para outros grupos populacionais.
O psiquiatra Marcelo Brañas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explicou que a investigação buscou entender se o risco genético apenas antecede o transtorno ou se interfere no desenvolvimento dos sintomas durante o crescimento. Brañas afirmou que grupos miscigenados ainda são pouco representados na genética psiquiátrica.
Os analisados, com idades entre 6 e 23 anos, foram avaliados em três momentos diferentes. Eles integram a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC), projeto que investiga as origens genéticas e ambientais de transtornos psiquiátricos há mais de 15 anos.
O pesquisador Lucas Ito, também da Unifesp, informou que o risco poligênico mostrou especificidade diagnóstica e relação com a evolução grave da doença. Segundo Ito, a ligação entre a carga genética e autolesões ajuda a esclarecer mecanismos de formas severas da patologia.
O trabalho foi orientado por Euripedes Constantino Miguel, coordenador do CISM, com coorientação de Pedro Mario Pan e mentoria de Lois Choi-Kain, da Universidade Harvard. O CISM é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e sediado na Universidade de São Paulo (USP).


