Personagens criados por inteligência artificial (IA) operam em redes sociais para vender e-books com supostas curas naturais para doenças graves, como diabetes e hipertensão. A apuração identificou mais de 70 perfis semelhantes que utilizam estereótipos de idosos, indígenas e monges para enganar usuários e lucrar com a venda de livros digitais e suplementos.
Um dos perfis monitorados apresenta Mei Lin Chen, de 73 anos, residente em Cotia, na Grande São Paulo. A personagem, inteiramente artificial, possui quase 700 mil seguidores no Instagram e vende um livro com 55 remédios naturais. Outro exemplo é a Vó Xayomi, apresentada como indígena, que comercializa um e-book de R$ 50 com a promessa de recuperar a saúde em sete dias.
As contas utilizam ingredientes comuns, como bicarbonato de sódio para catarata ou chá de cebola roxa para baixar o açúcar no sangue, sem qualquer evidência científica. O hepatologista Raymundo Paraná, da Sociedade Brasileira de Hepatologia, alertou que substâncias como a cúrcuma podem trazer riscos se usadas em concentrações elevadas ou associadas a outros componentes.
Relatos de usuários indicam consequências graves. Uma pessoa informou ter desenvolvido gastrite hemorrágica após seguir um tratamento para o fígado baseado em chá de canela, sal, cravo e gengibre. Para o médico Carlos Eduardo Viterbo, a ideia de que produtos naturais são inofensivos é uma simplificação arriscada, pois a segurança depende da dose e da frequência de uso.
A estratégia de vendas baseia-se na apropriação de ancestralidade e no conceito de conspiritualidade, misturando teorias da conspiração com espiritualidade. As publicações sugerem que as informações são verdades escondidas por médicos e pela indústria farmacêutica para mobilizar a confiança de pessoas vulneráveis e idosas.
Apenas 2% dos perfis analisados informam ser figuras fictícias. A maioria constrói biografias detalhadas para transmitir credibilidade. Segundo a pesquisadora Nicole Sanchotene, do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a desinformação tornou-se um mercado lucrativo que utiliza a IA generativa para simular vozes e personagens em minutos.
A Meta, responsável pelo Instagram, afirmou que suas políticas não permitem desinformação prejudicial sobre saúde, mas não mencionou a atuação de perfis gerados por IA. Dados da ONG CTRL+Z indicam que redes semelhantes no YouTube, com médicos artificiais, já ultrapassam 70 milhões de visualizações.

