Uma pesquisa desenvolvida em Aruanã (GO) analisa a construção de uma saúde intercultural entre os Inỹ Karajá da aldeia Buridina. O estudo busca compreender como a comunidade acessa a saúde pública e de que maneira as políticas nacionais dialogam com os sistemas tradicionais de cuidado ligados ao Rio Araguaia e à ancestralidade.
Para os Inỹ Karajá, a saúde é compreendida como o equilíbrio entre corpo, espírito, família e ambiente, indo além da ausência de doenças. A cura está ligada à memória coletiva, aos conhecimentos de plantas medicinais e à relação espiritual com o território do Cerrado. Esse modelo desafia a lógica exclusivamente biomédica do atendimento tradicional.
A apuração indica que, embora a medicina ocidental tenha ampliado a prevenção de enfermidades, ela é vista como apenas uma das dimensões do cuidado. A comunidade Buridina, situada às margens do Rio Araguaia, mantém a língua Inỹrybè e rituais ancestrais mesmo próxima à área urbana do município.
No campo jurídico, a Constituição Federal de 1988 e a Lei 9.836, conhecida como Lei Arouca, instituíram o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI-SUS). A norma consolidou o princípio da atenção diferenciada, que exige que os serviços de saúde considerem as especificidades culturais e sociais de cada povo.
Apesar dos avanços legais, a implementação enfrenta dificuldades práticas. A rotatividade de profissionais, as barreiras linguísticas, a logística em áreas remotas e a falta de formação intercultural das equipes são obstáculos para a efetivação do direito constitucional à saúde.
O projeto conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Boticário. A iniciativa integra programas como o Araguaia Vivo 2030 e o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) Araguaia.
Historicamente, o atendimento indígena no Brasil foi marcado por lógicas assistencialistas e de integração compulsória durante o século XX, sob a gestão do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e, posteriormente, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI).


