O aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis está tornando os episódios de El Niño mais intensos, segundo estudo publicado na revista Science. A análise de corais fósseis nas ilhas Galápagos revelou que a variabilidade do fenômeno aumentou 37% em relação ao período pré-industrial, elevando riscos de secas e enchentes.
A mudança tornou-se evidente nas últimas quatro décadas, com eventos apresentando intensidade superior à observada nos mil anos anteriores. Os pesquisadores utilizaram a composição química de corais do arquipélago das Galápagos, região sensível ao fenômeno, para reconstruir as temperaturas da superfície do mar durante o crescimento dos fósseis.
O El Niño, que ocorre a cada dois a sete anos, caracteriza-se pelo aquecimento das águas do Pacífico tropical central e oriental. Quando forte, o enfraquecimento dos ventos alísios desloca águas quentes para o Pacífico oriental, provocando chuvas excessivas na América do Sul e no sul dos Estados Unidos, enquanto Índia, Indonésia e Austrália enfrentam secas.
Na Amazônia, o fenômeno está associado a temperaturas mais altas, redução de chuvas e maior risco de incêndios. O episódio atual, apelidado de “Godzilla”, deve atingir o pico entre o fim de 2026 e o início de 2027. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aponta probabilidade superior a 90% de que o evento seja muito forte.
Os impactos atingem a segurança alimentar. O Programa Mundial de Alimentos (WFP) estima que 50 milhões de pessoas podem entrar em situação de fome aguda até o fim de 2027 devido aos efeitos na agricultura. O órgão identificou 225 milhões de pessoas em insegurança alimentar aguda em 45 países, com maior vulnerabilidade na África Austral, Caribe e Américas Central e do Sul.
A pesquisa demonstra que o El Niño não deve ser analisado como um fenômeno independente da crise climática. O aquecimento provocado por gases de efeito estufa aumenta a intensidade do evento que, por sua vez, libera mais calor para a atmosfera, criando um ciclo de retroalimentação em um planeta já aquecido.


