Contas de redes sociais da Argentina ligadas ao consultor Fernando Cerimedo e a influenciadores próximos ao presidente Javier Milei promovem uma campanha sobre uma suposta “invasão” de imigrantes marroquinos em Santa Catarina. As postagens alegam que o movimento é impulsionado por políticas migratórias do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A viralização das mensagens começou com publicações do veículo argentino La Derecha Diario, conforme mapeado pelo Observatório Lupa. O conteúdo utiliza fotos da crise de refugiados ocorrida em maio deste ano em Ceuta, enclave espanhol na África, para ilustrar a situação no Brasil. As postagens, que alcançaram 475 mil visualizações, afirmam que a imigração disparou com impacto econômico nos municípios catarinenses.
A narrativa baseia-se no fato de 50 marroquinos terem pedido refúgio em Santa Catarina nos últimos três meses. No entanto, dados do ObMigra e do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) indicam que houve 57 solicitações de marroquinos no estado em 2026 até julho, o que representa 1,86% do total de 3.059 pedidos. O volume é inferior ao de cubanos (1.707), haitianos (543) e venezuelanos (227).
Fernando Cerimedo, que era dono de 50% do La Derecha Diario até a semana passada, foi preso na Bolívia sob acusação de ordenar o assassinato da ex-companheira, Nadia Beller. Ele nega o crime. O consultor, próximo da família Bolsonaro, já foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito do golpe após publicar que as eleições de 2022 foram fraudadas.
O levantamento do Observatório Lupa registrou 13,4 mil menções à narrativa entre sexta-feira (21) e quinta-feira (27). Entre os disseminadores está o influenciador Christopher Marchesini, recebido em maio por Javier Milei na residência oficial da Presidência da Argentina. Marchesini publicou vídeo afirmando que a imigração marroquina ameaça a fronteira argentina.
Maiquel Rosauro, analista do Observatório Lupa, explicou que o caso combina o uso de informações verdadeiras retiradas de contexto com a criação de relações causais sem provas. Beatriz Farruggia, pesquisadora do mesmo órgão, afirmou que a Argentina surge como um novo ator em operações estrangeiras de influência, similar a práticas de Rússia, China e Irã.
A Missão Scalabrini Pastoral do Migrante, que assiste os marroquinos em Santa Catarina, relatou aumento de comentários negativos nas redes sociais. A coordenadora Dina Scharb disse que o volume de imigrantes marroquinos não é expressivo quando comparado ao de cubanos e venezuelanos.


