Presidente do Senado disse que “todo mundo esqueceu” do pedido feito por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”; declaração veio em meio à pressão da oposição por impeachment do ministro do STF
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), reagiu nesta quarta-feira (2) às cobranças da oposição sobre os pedidos de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e relembrou publicamente o pedido de R$ 130 milhões feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para financiar a produção do filme “Dark Horse”.
“Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme, e agora o culpado sou eu e o ministro Alexandre de Moraes”, disse Alcolumbre durante a sessão plenária, em tom irônico, sem citar nomes diretamente.
O presidente da Casa afirmou que vem sendo alvo de “agressões” por não dar andamento à leitura dos requerimentos de impeachment contra Moraes e adiantou que pretende se manifestar “com maior profundidade” sobre o tema em momento oportuno.
“Eu vou voltar para a pauta porque senão terei que responder muitas agressões que, como presidente do Senado, estou recebendo nos últimos dias. Apenas um comentário: no momento adequado eu vou falar”, declarou.
O contexto: mensagens vazadas e o filme “Dark Horse”
A fala de Alcolumbre faz referência a um conjunto de mensagens de áudio e documentos vazados no início de maio, que revelaram pedidos de recursos de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro para custear a produção de “Dark Horse”, filme sobre a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018.
O primeiro pedido teria sido feito em novembro de 2025, pouco antes de o Banco Master ser alvo da operação Compliance Zero. Flávio Bolsonaro defendeu-se afirmando que se tratava de patrocínio privado a uma produção privada, em um momento anterior às suspeitas de fraude na instituição financeira.
Dias depois, novos documentos indicaram que Eduardo Bolsonaro, radicado nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, também estaria envolvido na gestão financeira do projeto — inclusive orientando Vorcaro sobre formas de remeter recursos ao país sem chamar atenção das autoridades alfandegárias.
Planilhas do plano de pagamento organizado por Vorcaro, compartilhadas entre operadores do Banco Master, previam desembolsos de US$ 23,9 milhões entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 para a produção do filme. Os documentos indicam que, entre fevereiro e maio de 2025, já haviam sido repassados US$ 10,6 milhões. Na terça-feira (1º), a revista “piauí” revelou ainda um repasse adicional de US$ 1,6 milhão ao filme em setembro de 2025 — dias depois de Flávio Bolsonaro cobrar de Vorcaro parcelas atrasadas. A informação foi confirmada pelo g1.
Pressão por impeachment de Moraes
Os pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes se apoiam em relatório da Polícia Federal tornado público na terça-feira (1º), que menciona supostos contatos e encontros entre Vorcaro e o ministro desde 2023, além de mensagens trocadas com um número de telefone atribuído a Moraes.
Segundo o documento, em uma das mensagens o banqueiro demonstra preocupação com uma possível ação contra ele e cita a necessidade de procurar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O relatório também menciona um contrato do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, que previa pagamentos mensais de R$ 3 milhões, além de tratativas sobre um evento em Londres com participação de Moraes. De acordo com a PF, metadados de um documento relativo a esse contrato indicavam a última alteração feita por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
O nome de Paulo Gonet também aparece nas conversas: as mensagens mostram que ele e Vorcaro chegaram a se falar por telefone, e que o procurador-geral teria pedido ao banqueiro o custeio de passagem e hospedagem do filho para um evento jurídico em Londres patrocinado pelo Master — evento posteriormente cancelado.
A Polícia Federal ressalva, no entanto, que não realizou diligências investigativas contra magistrados ou integrantes do Ministério Público e que não há conclusão de que Moraes tenha cometido crime, interferido em investigações ou atendido a pedidos de Vorcaro. Trocas de mensagens entre o ministro e o banqueiro indicam ainda que os dois discutiam a possibilidade de a PF deflagrar uma operação que teria Vorcaro como alvo.
Bate-boca com a oposição
A declaração de Alcolumbre ocorreu um dia depois de Flávio Bolsonaro afirmar, em discurso no plenário, que Moraes teria atuado como articulador político entre o presidente do Senado e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Olhe o ambiente que os três Poderes respiram hoje: o presidente da República tem que se servir de Alexandre de Moraes para fazer articulação política, presidente Davi, com Vossa Excelência. Olhe a que nível chegou o ‘trabalho’, muito entre aspas, de um ministro do Supremo Tribunal Federal”, disse Flávio Bolsonaro na terça-feira.
Nesta quarta, Alcolumbre foi novamente cobrado, dessa vez por outros três senadores de oposição, sobre quando pretende dar andamento aos pedidos de afastamento de Moraes. O líder do PL, Carlos Portinho (RJ), foi um dos que pressionaram o presidente da Casa.
“Abra esse impeachment de uma vez por todas, presidente Davi. Essa é sua chance de entrar para a história pela porta da frente dos heróis da República, e não sair com Alexandre de Moraes pelos fundos, por que ele sairá”, disse Portinho.
Alcolumbre respondeu que não tem prazo definido para analisar os requerimentos. Segundo ele, há atualmente 109 pedidos de afastamento pendentes de avaliação no Senado, direcionados não apenas a Moraes, mas também a outros ministros do STF.
Como funciona o processo de impeachment no Senado
Cabe ao presidente do Senado decidir, em um primeiro momento, se arquiva ou admite cada denúncia — uma etapa de natureza política que costuma funcionar como o principal filtro do processo. Somente se a denúncia for aceita por Alcolumbre é que o rito pode avançar para uma comissão especial e, posteriormente, para votação em plenário.


