A deflação de 0,40% registrada pelo IPCA-15 trouxe alívio momentâneo ao mercado, mas economistas alertam que a queda é pontual. O resultado foi beneficiado pelo bônus de Itaipu nas tarifas de energia e por um período favorável aos produtos agrícolas, fatores que não devem se repetir nos próximos meses.
O economista sênior da 4intelligence, Fábio Romão, afirmou que a leitura atual não indica que a inflação esteja contida. Segundo Romão, haverá uma alta importante em setembro, com dados que serão divulgados no início de outubro. A 4intelligence projeta a inflação em 5,1% para 2026 e 4,5% para 2027.
Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria, avalia que um processo desinflacionário consistente exigiria um esfriamento mais amplo da atividade econômica e do consumo. A consultoria projeta a inflação em 5,3% em 2026 e 4,2% em 2027. O patamar dos alimentos, elevado desde o início da pandemia, e o fenômeno El Niño são apontados como riscos para o último trimestre deste ano e o primeiro semestre de 2027.
O setor de serviços também apresenta resistência. O grupo subiu 6,01% em 2025, e a projeção de alta para este ano foi revisada para 5,1% pela 4intelligence. No cenário externo, o petróleo Brent, cotado a US$ 95 por barril, pressiona os custos de transporte e produção. Conflitos no Leste Europeu e no Estreito de Ormuz, além de possíveis tensões entre Estados Unidos e Irã, elevam o risco de choques nos preços.
A questão fiscal é vista como o maior obstáculo para o controle de preços a longo prazo. Carlos Primo Braga, professor da Fundação Dom Cabral (FDC) e ex-diretor do Banco Mundial, informou que a dívida bruta do governo federal já supera 95%. Braga classificou o Orçamento de 2027 como uma obra de ficção, citando que as despesas crescem acima das receitas desde 2023.
A fragilidade fiscal aumenta a chance de dominância fiscal, onde a política monetária perde a eficácia. De acordo com o Banco Central, cada elevação de 1 ponto percentual na Selic acrescenta entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões ao custo de carregamento da dívida. Sem ajustes nas despesas obrigatórias, a previsão é de crescimento menor em 2027 e inflação resistente.


