Crianças começam a notar diferenças de tons de pele antes dos dois anos, e a ausência de diálogo dos adultos sobre o tema transfere a explicação do mundo para espaços nem sempre cuidadosos, segundo especialistas em educação antirracista. O letramento racial precoce é apontado como ferramenta essencial para a saúde mental e a autoestima infantil.
O professor de História Rafael Silva, diretor do Cubo Global School, afirma que o racismo opera como uma experiência adversa que gera estresse tóxico e compromete o desenvolvimento de crianças negras e indígenas. Para Silva, a crença de que o silêncio protege a leveza da infância é equivocada, pois deixa a criança desamparada diante de violências estruturais.
O especialista orienta que, entre um e dois anos, a abordagem deve focar no repertório, com bonecos pretos e indígenas e livros com protagonismo afro-indígena. Dos três aos seis anos, a mediação deve ser direta, estabelecendo que características físicas não podem ser motivo de piada ou exclusão. Já entre sete e 12 anos, o diálogo deve evoluir para a reflexão crítica sobre a herança do período colonial escravista.
A distinção entre racismo e bullying também é central. Enquanto o bullying é visto como um fenômeno interpessoal escolar, o racismo é definido como um crime previsto na Constituição que ataca a identidade e os traços da pessoa. A intervenção imediata do adulto em casos de racismo recreativo é recomendada para acolher a vítima e conduzir o agressor a uma reflexão.
O escritor e compositor Renato Gama defende que a literatura é a principal ferramenta para ampliar a percepção de diversidade e pertencimento. Gama explica que livros que destacam a potência da criança negra fortalecem a autoconfiança, permitindo que a criança olhe para o diferente com respeito.
Para pais de crianças brancas, a educação antirracista exige a revisão de privilégios e a análise dos ambientes frequentados. Segundo a apuração, a convivência real com pessoas de diferentes origens e culturas facilita a valorização das diferenças e combate a reprodução de preconceitos no ambiente doméstico.


