Cientistas identificaram mais de 1.000 variantes genéticas que contribuem para a formação da personalidade humana, segundo estudo publicado nesta quarta-feira (2) na revista Nature. A análise, que envolveu o mapeamento genômico de mais de um milhão de pessoas, examina a base biológica dos cinco traços principais do temperamento, conhecidos como ‘Big Five’.
O modelo Big Five divide a personalidade em cinco dimensões: extroversão, abertura a experiências, amabilidade, neuroticismo e consciência. A pesquisa indica que a genética consegue prever até 13% desses traços, reforçando a tese de que a personalidade resulta de uma combinação entre a biologia e o ambiente.
Michel Nivard, professor de epidemiologia genômica da Universidade de Bristol, autor do estudo, afirmou que a personalidade é fundamental para a saúde. Traços de neuroticismo, por exemplo, possuem ligações com a ansiedade e podem prever se um paciente seguirá corretamente a administração de medicamentos ou buscará ajuda médica.
A apuração revelou correlações entre a genética e comportamentos práticos. Pessoas com variantes ligadas à extroversão tiveram maior probabilidade de contrair Covid-19 no início da pandemia, devido à maior propensão a interações sociais. Já indivíduos com perfis voltados à abertura a novas experiências tenderam a viver em cidades cosmopolitas, enquanto aqueles com alto neuroticismo migraram para subúrbios ricos.
Denis Bratko, psicólogo da Universidade de Zagreb, explicou que tentativas anteriores de encontrar esses links falharam por utilizarem amostras pequenas ou por buscarem um único gene dominante. O novo estudo comprova que a influência genética é difusa e distribuída por diversas variantes com efeitos sutis.
Tena Vukasović Hlupić, também psicóloga da Universidade de Zagreb, declarou que os resultados fornecem evidências empíricas de que não existe um gene único para cada traço. A descoberta pode permitir, no futuro, a criação de triagens para identificar predisposições a condições de saúde mental.
Apesar do avanço, Nivard informou que testes genômicos não substituem avaliações psicológicas. Para conhecer a própria personalidade, o professor afirmou que a melhor via continua sendo a aplicação de testes acadêmicos validados.


