Um estudo com fungos do gênero Trichoderma, isolados de solos da Caatinga, revelou que espécies nativas do bioma possuem alta resistência térmica e capacidade de adaptação a ambientes extremos. A pesquisa indica que esses microrganismos podem ser utilizados no controle biológico de doenças agrícolas em regiões semiáridas, reduzindo a dependência de fungicidas químicos.
Os pesquisadores coletaram amostras em áreas de vegetação nativa e em lavouras irrigadas de melão nos estados da Bahia e do Piauí. Foram identificados 14 isolados de cinco espécies diferentes: Trichoderma asperellum, T. asperelloides, T. koningiopsis, T. virens e T. spirale. A apuração mostrou que a composição dessas comunidades varia conforme o uso do solo e as características químicas do ambiente.
O estudo testou o crescimento dos fungos em temperaturas de até 40 °C. Isolados de T. asperellum, T. asperelloides e T. virens vindos de solos agrícolas apresentaram tolerância superior ao estresse térmico em comparação aos de áreas nativas. Segundo Gabriel Mascarin, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente (SP), compreender essas interações é fundamental para criar estratégias agrícolas mais resilientes às mudanças climáticas.
Nos testes laboratoriais, os fungos atuaram contra cinco organismos causadores de doenças, incluindo espécies de Fusarium e Pythium. O confronto direto foi mais eficiente contra Rhizoctonia solani e Macrophomina phaseolina. Já contra Pythium myriotylum e Fusarium solani, os compostos voláteis produzidos pelos fungos reduziram o crescimento do patógeno em mais de 70% em alguns casos.
O Trichoderma koningiopsis foi apontado como o isolado mais promissor por apresentar desempenho consistente contra todos os patógenos testados. Já a capacidade de produção de esporos, essencial para a fabricação de biofungicidas em larga escala, foi maior nas espécies T. asperelloides e T. asperellum, que atingiram mais de 1,4 bilhão de conídios por grama de substrato após dez dias de cultivo.
Rodrigo Mendes, também pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, explicou que a distribuição das espécies é influenciada pela fertilidade do solo. O T. virens e o T. asperellum associam-se a solos com mais fósforo e matéria orgânica, enquanto o T. spirale relaciona-se a solos mais ácidos e ricos em alumínio e ferro. Wagner Bettiol, pesquisador da mesma instituição, afirmou que o uso de agentes biológicos contribui para sistemas agrícolas mais sustentáveis.


