Programas de geração de vídeo com inteligência artificial (IA) de baixo custo estão substituindo atores e influenciadores digitais na China. A tecnologia, exemplificada pelo modelo Seedance 2.0 do grupo ByteDance, permite a criação de sósias digitais que produzem conteúdos com maior rapidez e menor custo, impactando milhões de profissionais do setor.
No primeiro trimestre de 2026, a China lançou cerca de 128 mil séries curtas, volume três vezes superior ao ano anterior. Desse total, 95% foram geradas por IA, segundo a Associação Chinesa de Serviços de Transmissão On-line. Em maio, 89 dos 100 dramas animados mais populares no Douyin, plataforma da ByteDance, eram produções sintéticas, apurou a DataEye.
O impacto financeiro é imediato. O custo por minuto de produção hoje gira entre 600 e 800 yuans (US$ 90 a US$ 120), o que representa 10% do valor pago a atores humanos. O tempo de execução também caiu: produções que levavam três meses com equipes de cinco pessoas agora são finalizadas por um único funcionário em até dois dias, informou Shen Yang, diretor do laboratório de metaverso da Universidade de Tsinghua.
No comércio eletrônico, apresentadores digitais operam 24 horas por dia com custos 10% menores. A Baidu relatou que um sósia digital do streamer Luo Yonghao gerou 55 milhões de yuans (US$ 7,7 milhões) em vendas em apenas sete horas, superando o desempenho do profissional real. Na plataforma JD.com, mais de 70 mil comerciantes já utilizam esses avatares.
A pressão sobre os trabalhadores levou alguns artistas a cederem a imagem e a voz para a criação de réplicas sob ameaça de demissão. Uma apresentadora de programa infantil, que não quis ser identificada, contou que foi coagida a consentir com a réplica em abril para não ser substituída por outro ator.
O cenário reflete em disputas judiciais. O advogado Jiang Xiaotong, de Zhejiang, afirmou que as ações trabalhistas ligadas à IA cresceram nos últimos três anos. Em Hangzhou, o tribunal determinou que uma empresa pagasse indenização maior a um funcionário substituído por inteligência artificial. A indústria de séries curtas emprega 690 mil pessoas diretamente, enquanto 15 milhões citam a transmissão ao vivo como profissão principal.


