O Instituto Esfera de Estudos e Inovação, em parceria com o iFood, publicou estudo que alerta para o risco de preços predatórios no mercado de delivery brasileiro. O documento defende que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) adote medidas preventivas contra aportes bilionários de plataformas asiáticas destinados a eliminar concorrentes.
A Keeta, controlada pela chinesa Meituan, prevê investir R$ 5,6 bilhões no Brasil até 2030. Paralelamente, a 99Food, do grupo Didi, anunciou plano de R$ 2 bilhões até o fim de 2026. Segundo Fernando Meneguin, diretor acadêmico do Instituto Esfera, a análise antitruste deve diferenciar incentivos iniciais de escala da injeção de recursos desproporcionais para excluir rivais.
O estudo cita a “bolha de cupons” na China a partir de 2025. Pesquisa da Universidade Fudan com 40 mil estabelecimentos mostrou que, embora os pedidos tenham subido 7%, a receita efetiva caiu 4% e os lucros recuaram 8,9%. Entre entregadores, a remuneração básica por corrida caiu de até 9 yuans (R$ 6,90) para menos de 2 yuans (R$ 1,50) em trajetos curtos.
Casos em Hong Kong e no Kuwait também são citados. Na primeira cidade, após a Keeta consolidar mais de metade do mercado e a Deliveroo encerrar operações, as comissões cobradas de restaurantes subiram de 15% para até 35% em menos de um ano. No Kuwait, um concorrente local fechou dois meses após a chegada da empresa chinesa.
O iFood protocolou representação formal no Cade contra a Keeta, solicitando processo administrativo e medida preventiva. A empresa afirma que a disputa deixou de ser guiada por eficiência para se tornar uma guerra de capital sustentada por recursos da matriz chinesa. O órgão concorrencial já monitora o setor em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Santos e São Vicente desde o fim de 2025.
Meneguin sugere que o Cade utilize a Lei 12.529/2011 para suspender condutas nocivas. A proposta inclui a exigência de transparência sobre a origem das verbas promocionais e a proibição de repasse de custos de cupons aos restaurantes, seguindo modelos adotados na China e na União Europeia.


