A Justiça argentina determinou, nesta sexta-feira (4), a restituição da pintura “Retrato de uma Dama” à herdeira de Jacques Goudstikker, galerista judeu holandês. A obra, saqueada durante a Segunda Guerra Mundial, foi localizada em uma residência em Mar del Plata após aparecer em fotos de um anúncio imobiliário.
O juiz federal Santiago Inchausti baseou a decisão em um acordo entre as partes. Patricia Kadgien, de 59 anos, e o marido, Juan Carlos Cortegoso, aceitaram devolver a tela à nora e única herdeira de Goudstikker, Marei von Saher. O casal chegou a ser acusado de acobertamento e colocado em prisão domiciliar após a identificação do quadro.
A pintura foi encontrada na casa de Kadgien, filha de Friedrich Gustav Kadgien. Ele era funcionário administrativo do marechal Hermann Göring, número dois do Terceiro Reich. Após a guerra, Friedrich fugiu para a América do Sul com Ludwig Haupt, estabelecendo-se em Buenos Aires, enquanto Haupt fixou residência no Rio de Janeiro. Ambos morreram na década de 1970.
A obra foi identificada como sendo do italiano Giacomo Ceruti (1698-1767). O promotor federal Carlos Martínez informou que a peça está em bom estado de conservação e teve a autenticidade confirmada por perícias. Outras peças apreendidas na residência foram devolvidas à família por serem réplicas ou não pertencerem ao espólio saqueado.
O acordo judicial estabelece o pagamento de 4,8 milhões de pesos argentinos (cerca de 16.305 reais), valor que será doado a hospitais locais. A defesa dos Kadgien tentou alegar prescrição do crime, mas a Justiça argentina e o direito internacional consideram que delitos cometidos no contexto de genocídio não prescrevem.
O quadro permanece sob a custódia da Suprema Corte argentina. Segundo o advogado Guillermo Brady, a família pretende que a obra seja exibida em Buenos Aires por pelo menos um ano em uma exposição de conscientização, com conversas em andamento com o Ministério de Relações Exteriores e museus locais.


