Grandes marcas do varejo, redes de alimentação e companhias de bens de consumo acumulam quase R$ 20 bilhões em dívidas em processos de recuperação judicial em 2026. O movimento expõe a dificuldade de modelos tradicionais de negócio para se adaptar aos juros elevados, à transformação digital e à redução do consumo no Brasil.
A Casas Bahia recorreu novamente à Justiça com R$ 17,3 bilhões em dívidas, após ter realizado uma recuperação extrajudicial em 2024. O Grupo Toky, composto por Mobly e Tok&Stok, solicitou recuperação em maio com passivo de R$ 1,1 bilhão. Já o Grupo Gennius, proprietário das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou no processo com dívidas de R$ 265 milhões. A lista inclui ainda as Lojas Marabraz, a Americanas e a CVLB, dona de Casa&Video e Le Biscuit.
Dados do Monitor RGF-BIZDOC indicam que o Brasil tinha 6.341 empresas em recuperação judicial em julho de 2026. No primeiro semestre, 370 companhias entraram no regime, o que representa uma alta de 6,2% em comparação ao mesmo período de 2025, quando o estoque era de 5.971 empresas. No agronegócio, o número de empresas em recuperação judicial chegou a 1.263, alta de 21,4% no semestre.
Claudio Damasceno, sócio sênior da RGF e especialista em reestruturação, afirmou que o estresse financeiro está descendo a pirâmide empresarial e incorporando empresas de menor porte. Segundo Damasceno, a taxa Selic impacta intensamente o varejo, que depende de capital de giro para estoques e recebíveis. O custo elevado de captação e a inadimplência reduzem a capacidade de geração de caixa para pagar dívidas.
A expansão de plataformas digitais asiáticas em categorias como eletrônicos e vestuário também pressionou o setor. Damasceno explicou que tais plataformas funcionam como aceleradores de uma crise originada na dificuldade de integrar lojas físicas e canais digitais de forma rentável. Custos fixos com aluguel e logística pesam contra concorrentes nativos digitais.
O especialista disse que, embora o cenário macroeconômico explique a pressão, as decisões administrativas definem quais empresas perdem a capacidade de pagamento. O caso da Americanas foi citado como um exemplo extremo de problemas de governança. Na última semana, a Justiça decretou a falência da Oi, encerrando um processo de recuperação iniciado em 2016.


