A combinação de temperaturas elevadas, chuvas irregulares e desmatamento está alterando o mapa de circulação de vírus no Brasil. O desequilíbrio ambiental favorece a expansão de vetores, como mosquitos e carrapatos, permitindo que doenças antes restritas a certas regiões alcancem novos territórios e apresentem comportamentos menos previsíveis.
Em agosto de 2026, o estado de São Paulo confirmou os dois primeiros casos humanos de febre do Nilo Ocidental, diagnosticados em pacientes de Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. Santa Catarina também registrou dois casos, com a morte de uma mulher de 77 anos. No Piauí, um caso da doença segue sob investigação.
O médico sanitarista Álvaro Madeira Neto explica que a temperatura, a umidade e a disponibilidade de água influenciam diretamente o desenvolvimento, a reprodução e a distribuição geográfica de organismos ectotérmicos, como os mosquitos. Segundo o Ministério da Saúde, o aumento do calor e as mudanças na precipitação são fatores centrais para a disseminação do Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika e chikungunya.
A pesquisadora Marielena Vogel Saivish, da University of Texas Medical Branch, afirma que temperaturas mais altas aceleram o desenvolvimento das larvas e encurtam o período de incubação extrínseca do vírus no vetor. Isso significa que a proporção de mosquitos capazes de transmitir a doença aumenta, pois o vírus atinge as glândulas salivares do inseto em menos tempo.
Os impactos variam conforme o bioma. Na Amazônia, o desmatamento e a mineração aumentam o contato humano com ciclos silvestres de vírus como oropouche e mayaro. No Nordeste, a escassez hídrica leva ao armazenamento doméstico de água, criando criadouros. Já no Sul e Sudeste, o aquecimento amplia a janela de atividade de vetores em áreas que historicamente eram mais frias.
O infectologista Fernando Silveira, da Secretaria de Saúde do DF (SES-DF), afirma que a alta densidade populacional no Sudeste favorece a rápida disseminação de vírus introduzidos na região. A circulação ocorre por meio de viagens de pessoas infectadas, transporte por animais ou expansão natural da área de ocorrência dos vetores.
A análise indica que o risco epidemiológico resulta da interação entre clima, urbanização acelerada, falta de saneamento básico e ocupação desordenada do território. A coexistência de múltiplos arbovírus pode gerar sobrecarga em unidades básicas, emergências e laboratórios, especialmente quando vírus atingem populações sem imunidade prévia.


