O escritor João Guimarães Rosa registrou, em 1952, os riscos de devastação do Cerrado mineiro durante uma comitiva de boiadeiros que percorreu 240 quilômetros entre Três Marias e Araçaí. As anotações serviram de base para obras como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, que completam 70 anos neste ano.
A professora Mônica Meyer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), investiga a presença ecológica na obra do autor no livro “Ser-tão natureza”, lançado no mês passado. Segundo a pesquisadora, Rosa já notava a presença de eucaliptos e a ação de siderúrgicas na região. Na época, o escritor observou que os fornos dessas indústrias eram alimentados com carvão extraído do bioma.
Meyer afirma que o autor não trata o Cerrado como cenário, mas como um personagem. A análise indica que a obra defende a natureza ao mostrar que o ser humano não está dissociado do meio ambiente. No romance Grande Sertão: Veredas, a personagem Diadorim estimula o protagonista Riobaldo a observar a fauna e a flora, como ocorre no registro da ave batuíra-de-coleira, conhecida como manuelzinho-da-crôa.
A pesquisadora classifica a obra-prima da literatura como um romance aquático. O texto detalha as raízes pivotantes do Cerrado, a movimentação de pessoas e o Rio de Janeiro, afluente do Rio São Francisco em Três Marias. A narrativa também traça as duas estações do bioma: o período de chuvas e a fase de seca.
Para a professora, os escritos de Guimarães Rosa funcionam como uma enciclopédia do Cerrado e podem ser utilizados em aspectos da educação ambiental. A abordagem do autor estimula o leitor a enxergar a natureza como um espaço vivo, em vez de tratá-la como mercadoria ou recurso natural.

