O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou nesta quinta-feira (3) no Parlamento que não existem provas de que o governo do Marrocos tenha planejado ou executado a crise migratória ocorrida no mês passado na cidade autônoma de Ceuta, no norte da África.
Sánchez declarou que nenhum órgão governamental ou entidade internacional forneceu evidências sólidas sobre a participação marroquina, reiterando que redes de desinformação teriam incentivado as travessias irregulares. O discurso ocorre sob pressão de pedidos de renúncia da oposição e após protestos de milhares de pessoas na quarta-feira, tanto em Ceuta quanto na Espanha continental.
A tensão cresceu após a divulgação de um suposto relatório policial, publicado pelo site El Español, que indicava a permissividade da polícia marroquina e um efetivo reduzido durante a crise. Autoridades do governo e policiais negaram a existência de qualquer documento oficial que aponte autoria do incidente.
A onda migratória mobilizou ao menos 70 mil pessoas que cruzaram a fronteira terrestre entre a África e a União Europeia em poucas horas. Analistas sugerem que o movimento pode ter sido uma resposta política de Rabat ao descontentamento com a reaproximação diplomática entre Madri e a Argélia, envolvendo disputas sobre o Saara Ocidental e o setor de gás natural.
No Legislativo, o líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, pediu a renúncia de Sánchez por “incompetência” ou “cumplicidade”, sugerindo a convocação de eleições antecipadas. Santiago Abascal, do partido Vox, acusou o premiê de “traição” e afirmou que uma farsa on-line não seria capaz de mobilizar 100 mil pessoas.
Como reflexo da crise, o governo da Itália suspendeu a livre-circulação de pessoas provenientes da Espanha, citando o risco de entrada em massa de indocumentados. Sánchez reafirmou a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla, mencionando que convocou o embaixador marroquino no dia 21 de agosto após declarações de ministros do Marrocos reivindicarem os exclaves.
O primeiro-ministro defendeu que o rei Felipe VI visite as duas cidades nas próximas semanas para transmitir o compromisso do Estado. A última visita de um monarca espanhol aos territórios ocorreu em novembro de 2007, realizada pelo rei Juan Carlos.


