A redução da taxa Selic, iniciada em março com quatro cortes sucessivos, não provocou a diminuição nas taxas médias de crédito bancário para pessoas físicas e jurídicas, segundo o especialista em renda fixa Otávio Fakhoury. O custo do crédito pessoal chegou a 130% ao ano, evidenciando que outros fatores influenciam o preço final dos empréstimos.
Fakhoury explicou que a Selic funciona como referência de curto prazo e não determina o preço do crédito de longo prazo. Bancos que concedem financiamentos imobiliários, por exemplo, avaliam custos e riscos ao longo de todo o período, incorporando taxas negociadas no mercado. O custo desses financiamentos é definido por expectativas de inflação, nível da dívida pública, política fiscal e confiança internacional.
A dívida pública brasileira subiu de R$ 7 trilhões para quase R$ 11 trilhões em cinco anos, sem cortes expressivos de despesas. De acordo com o Financial Stability Board (FSB), o pagamento de juros da dívida representa quase 9% do Produto Interno Bruto (PIB), o que coloca o Brasil como o maior pagador de juros sobre dívida.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou para o reaparecimento de pressões inflacionárias globais, elevando a expectativa de aumento nas taxas básicas e rendimentos de títulos públicos. A avaliação do órgão indica que o esforço do governo brasileiro para cortar gastos ainda é insuficiente para estabilizar a dívida no longo prazo.
A instabilidade institucional e a falta de regras claras elevam o retorno exigido por investidores. Esse cenário impacta o parcelamento de máquinas e a expansão de negócios. Em junho, o país registrou recorde de 9 milhões de companhias com dívidas em atraso e quase 84 milhões de brasileiros com restrições de crédito.
Para Fakhoury, enquanto persistirem incertezas sobre inflação, gastos governamentais e estabilidade, o custo do crédito permanecerá elevado. O especialista afirmou que “quem manda é o mercado”, pois as taxas são determinadas pelas condições de oferta e demanda no setor financeiro.


